domingo, 30 de maio de 2010

Charutos, divindades e jogadores

Já dizia o bom e "popular" livro, "O corpo fala" de Pierre Weil e Roland Tompakow que Sigmund Freud, ao fumar seu charuto, é olhado com espanto pelos seus alunos, como quem se remete aos cuidados de uma "fixação oral". A resposta de Freud foi simples e curta: " As vezes um charuto é apenas um charuto." Ponto final.

Não! Não acabou. A minha linha de raciocínio está ser desenvolvida ainda ao longo deste texto. É só pensarmos que nem tudo é o que a gente pensa ser, muitas vezes as respostas são mais simples do que imaginamos.

Talvez seja essa a abordagem que não compreendemos quando estamos diante de um outro país, outra cultura e outra religiosidade. Talvez a nós ocidentais seja estranho que um rio como o Ganges seja tratado com muito respeito religioso, ou mesmo que observemos pessoas fazendo oferendas a deuses com oito braços. Estranhamos plenamente, pois aquele deus não tem um significado para nós. Diriam os ocidentais que o Deus, Jeová, Javé, Jesus, é o Deus. E este é o familiar. Logo, para nós, aquela divindade é uma mera curiosidade diante de adorações e oferendas místicas.

Mas também não somos obrigados a acreditar que aquela divindade é uma divindade. Simplesmente existe e ponto final. A adoração é daquele povo, e enquanto a minha crença não for modificada, não a verei como uma divindade. É uma preservação de opinião.

É não tem sido diferente nesses últimos tempos... nossas divindades espantam-se ao não serem reconhecidas como deuses. Ao ler rapidamente o comentário de Fernando Fernandes sobre o comportamento observado por ele sobre a reação dos sul-africanos ao verem a Seleção Brasileira de Futebol, percebi o quanto tudo isso é semelhante, em um certo aspecto, à charutos e deuses desconhecidos. Viu serem os jogadores assediados ao irem a um shopping para tomar sorvete. E ao visitar algumas meninas em um jogo de Netball, serem completamente ignorados.

Ótimo, enquanto os brasileiros apreciam a visão de que temos deuses do futebol, e que eles representam o ápice do esporte, tudo isso não passa de  um "mero fato estranho" entre as gurias, jogadoras deste tão desconhecido jogo. Para elas são deuses dos outros, e não nossos. Mas não compreendemos desse jeito - insistimos que nossos deuses são deuses de todos e devem ser adorados.

Talvez seja o mesmo espírito pelo qual os espanhóis e portugueses vieram para o Brasil trazendo Jesuítas para a catequização de pobres almas indígenas, crentes de uma divindade estranha, cujo deus maior e desconhecido deveria pairar em tais pulsantes corações.
Nem todo deus é deus em todos os lugares. Nem todos os brilhantes jogadores da seleção brasileira de football são divindades em todos os lugares. São seres humanos como quaisquer outros, mas como somos orgulhosos por demais nesse sentido, as outras pessoas é que são tolas em não compreender tal situação.

Nem todo charuto é uma lembrança dos peitos de mamãe. Nem toda deusa Shiva deve ser reverenciada por todas as pessoas que não acreditam nela. Nem todo indivíduo da seleção de futebol é um brilhante jogador a toda humanidade, a ponto de merecer tietagem de todos os seres humanos. Pode ser para nós, mas não podemos obrigar ninguém que acredite no contrário, que de fato são.

Felizes são as meninas do Netball, que estão sem entender até agora o que aqueles jogadores do Brazil foram fazer ali.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Arquivo em processo de morte

Em uma não muito pacata cidade do interior de São Paulo, resolvi um dia fazer uma visita a um arquivo histórico municipal. Não sabia eu, mas o bendito ficava no interior do paço municipal.

Fui lá visitar tal arquivo. Me assustei com o tamanho, pois por uma cidade tão velha, um arquivo com menos de 15 metros quadrados seria deveras disperdício ou ausência de necessitaade de recolhimento de documentos.

Não tinha percebido que além do pequeno arquivo local, lá estava sentado um senhor, a folhear uma revista, como quem ali está a esperar alguém.

E me espantei quando reparei que ele era o atendente - ele estava literalmente esperando que alguém ali chegasse e utilizasse de sua bondade historiográfica. Obviamente lá estava ele com outra pessoa, para auxiliar nas pesquisas. Dar o direcionamento e quem sabe servir um cafezinho.

Ao entrar, já me indicaram a conversa com aquele senhor - ele saberia tudo o que eu precisava. Achei muito legal, e de fato aquele senhor sabia tudo. Escrevia alguns livrestos de história local, com aquele velho ar positivista dos prefeitos e grandes personalidades.

Uma prosa um tanto quanto agradável, diria eu sobre o que aquele senhor poderia me oferecer. Trazia detalhes sobre a fundação da cidade a até mesmo sobre os antigos povos daquela região - trazia detalhes sobre os indígenas. E sobre os primeiros moradores, as fazendas, costumes. "É este o assunto? A menina vai pegar para você tal e tal livro. Leia. Você vai gostar. Aliás, eu vou autografar um para você."

Conversando com a secretária do arquivo, ela dizia que aquele senhor era extremamente solicitado por todos que pesquisavam o lugar. Muitas e muitas entrevistas ele dava justamente pela quantidade de informações que ele tinha para dar. Não que ele fosse uma celebridade, mas era um dos poucos que estava carregando o fardo de preservar a história de sua cidade, aplicando metodologias próprias e encerrando em sua mente e em suas palavras a história verdadeira e concreta, como toda boa história local, sem aquelas rigorosidades teóricas.

Aquilo me deixou feliz por ver o empenho de um velho senhor em uma velha situação - preservar a História. Me deixou perplexo por um outro lado, pois aquele velho arquivo estava fadado a um triste destino.

Somos seres humanos. E morremos. Obviamente não é diferente para aquele senhor, com suas xícaras, seus contos e vivências. O Arquivo era ele, por isso que era tão pequeno o espaço. Todos que iriam pesquisar sobre a história da cidade passariam pelo seu crivo, e não pelo crivo do próprio arquivo - ali estão tais e tais coisas - e a secretária apenas levanta-se para obedecer ordens, tirar xerox dos documentos indicados e servir café. Os documentos teriam voz? Por que não entrevistar aquele senhor que tem todo o conhecimento?

Aquilo me deixou triste, por ver que em uma cidade como aquela, com tantas mentes universitárias, e até mesmo com um curso de arquivologia, o sistema aplicado estava fadado a passar pelos olhares de um velho senhor, conhecedor da História daquela cidade.

Ele era a História em si, enquanto que o arquivo era o registro físico daquilo que ele não tem como guardar na mente - é a representação documental dos seus pontos de vistas, de seus resquícios pessoas, e do comando de uma história - de prefeitos e celebridades.

Sempre acreditei que o arquivo em si deveria ter uma vida própria, em que funcionários fariam fluir todo o seu conhecimento por meio de pesquisas pessoais para assuntos das mais diversas opiniões. Ledo engano para aquele arquivo - ele era o dono da voz e da vez. E a vez está muito próxima a passar por um destino desconhecido, em que não haveriam mais indicativos pessoais, o conteúdo daquele arquivo poderia ser modificado e tudo que um dia sustentou-se pelas costas e pelo historicismo local daquele velho indivíduo, deixaria de existir. Seria levado para o túmulo.

Pela primeira vez na minha vida, vi um arquivo em falecimento - morrendo aos poucos, sendo explorado por um único ponto de vista, por algo incrivelmente assustador - a história de uma velha cidade fadada ao esquecimento. Pela primeira vez, um arquivo sem vida própria, carregado por um guindaste com cabos prestes a se romper.

sábado, 15 de maio de 2010

Último dia de vagabundo

Não sei se já repararam, mas tenho uma certa tendência de reparar o que anda rolando na mídia, e não foi diferente desta vez. Deparei-me com um comercial um tanto quanto atrativo do EcoSport 2011 da Ford.



Um comercial um tanto quanto atraente. Se fôssemos pensar no objetivo, de demonstrar que o carro é um dos meios da busca da liberdade, da vida sem limites, esse comercial atingiu o seu objetivo. Jovens entre seus 20 e 30 anos em busca daquilo que o mundo melhor oferece.

Quem dera fosse qualquer mundo, mas é o mundo natural, sem prédios nem antenas. É o mundo em que não dependemos da rotineira vida de trabalho. Nosso despertador toca, plena segunda-feira... por que trabalhar?
Não! Vivamos a vida de amizades e naturezas.

E no outro dia? Mais um dia de viver como se fosse o último dia. De naturezas e prazeres. Não há obrigações: uma placa de não ir em frente significa "burlar e saltar para o mais profundo rio de ausência de obrigações."

E por que não dizer também que podemos encher uma piscina com espumas e fazer uma festa que nunca ninguém faria?



Talvez o espiríto envolvido nesta situação não é diferente da liberdade que proporciona um carro - muito pelo contrário, essa foma de expressão pode ser feita até mesmo com uma bicicleta de traseira abarrotada de espuma. Mais uma vez juntamos os amigos e convocamos o mais célebre dos instintos: BE THERE. Esteja no lugar do divertimento, da festa, dos amigos, do diferente.

E por que não dizer também que o seu tênis, o seu pisante também lhe proporciona prazeres fantasticamente incríveis?




Este comercial, envolvendo celebridades da atualidade (coincidentemente ou aparentemente jovens) apresenta uma alternativa um anto quanto parecida com o comercial da Smirnoff - um ambiente alternativo, porém de aceitação universal, tal qual a própria mara da Adidas. Todos sempre s reúnem em uma felicidade coletiva, praticamente enebriante, em que todos sem excessão são felizes com Adidas. Lá está ele, o tênis, compartilhando o momento ao lado de tantas pessoas famosas que fazem a opção pessoal de usarem tal marca.

Intriga-me a forma pela qual somos envolvidos nessa situação toda - os comerciais, apresentando vidas ideais, festas alternativas bacanas em um grupo jovem.

Maravilhoso se não fosse fora da realidade. Creio eu que os dois últimos comerciais demonstram o prazer e ser jovem, de estar em ambientes completamente urbanos, porém facilmente burláveis, como quem quebra regras do cotidiano social -o mundo cinzento do concreto armado não foi feito apenas para apartamentos e empresas - eia a criatividade e o mundo proporcionado pela quebra de ambientes rigorosos no comercial da Adidas e Smirnoff. Subir uma escada rolante com um saco cheio de espuma, cujo volume ultrapassa os limites físicos da pobre escada não é dizer  que "eu-posso-e-ponto-final"? Ter a melhor manobra de skate e promover uma corrida sem motivos aparentes, com uam torcida numerosa e animada não é dizer que "agora-eu-consigo-alcançar-meus-limites"?

E por que não bater em um dispertador e abrir uma lista de afazeres, de estratégias bucólicas? O indivíduo não precisa do "cinza-concreto", já tem em si o "verde-mata". É a forma pela qual podemos obter o mundo da imortlidade, de atingirmos nossas metas e vivermos sem grandes preocupações. O próximo dia será o dia de "viver-o-último-dia-despreocupado-de-obrigações".

E por que não dizer que os três comerciais, coincidentemente, como tantos outros mundo afora, não apresentam as dificuldades ou o dinheiro que temos que ter para obter um desses produtos? Não, o prazer não tem preço.

Não tem preço eu ter entrado em uma sala de aula do Segundo ano do Ensino médio do estado (SP), e percebido entre os cadernos dos alunos que o desenho que eles mais gostavam de fazer era o símbolo da adidas. Linhas transversais em uma cor universal - o preto. Fiquei um tanto quanto incomodado com isso, pois percebia que os alunos sequer usavam algum produto da marca. Mas lá estava o símbolo, tanto no quadro de recados, riscado à ponta de um compasso, quanto na última folha do caderno. O que atraía esses alunos?

Talvez não seja as fortes marteladas que o mundo dos comerciais dão, indicando um mundo ideal, com aquele produto? No imaginario daqueles alunos, o mundo ideal era fora da realidade financeira deles - era imaginativa e tinha um símbolo definido. E de outras marcas também, o da Nike, Puma e outros. Cujos produtos falsificados rendiam-lhes comentários entre os colegas de que aquele está com uma boa marca. Falsificado. Com o símbolo ideal, numa vida igual. Nada mudou, a não ser a atenção recebida. Um problema de carência e de um idealismo que fere a quem não vive a "realidade-símbolo".

O mundo ideal é demonstrado por uma bebida, um carro e um tênis. Por quem não pode ou não tem, fica o mundo da imaginação da amizade, liberdade e prazeres.

O alvo é a juventude - pronta para viver e compartilhar sentimentos. O alvo é a juventude que se confunde com o mundo real e se confunde com o mundo irreal - conquistar objetivos sem preços. Nem limites. Ua bela de uma manipulação mental.

E por que não dizer da manipulação mental quando estamos em um mundo, cujos jovens tem tantas dificuldades em escolher suas carreiras, em dizer como será o amanhã, ou mesmo pensar no futuro? Carpe diem diria eu aqui, mas o carpe diem dos comerciais é uma oferenda a juventude que prefere o fácil, as praias, o burlar, a piscina de espuma em uma festa alternativa, com a presença de Snoop Dog.

Mostrar que o mundo dos prazeres tem seus objetos definidos é fácil. Lembrá-los do mundo real, dos salários, do concreto, das notas baixas e da vida difícil, cansa. Vamos viver o que há de bom. O despertador toca para um dia de prazeres, não de estudos. O tênis me leva para um local esquisito de gente legal, não para a minha escola. A vodca faz uma festa criativa, não um hospital e para a glicose.

Eu posso me considerar velho perto dessa geração que vivencia tudo isso, mas não sou burropara enxergar que a realidade é mais crua que imaginamos. Que tudo que conquistamos depende de nossos esforços, não aparecem num estalar de dedos. Que a sociedade massacra tais cérebros em favor do consumismo inútil. De deixar de ser vagabundo que vive a beira-mar e trabalhar em prol do bem-estar da sociedade. Que não é o tênis que fará a escolha no questionário da Fuvest quanto ao curso que vou prestar. E que tudo depende(infelizmente) do dinheiro, então acorde e vá lutar pelos seus sonhos, pois nada aparece num toque de varinha.

Eu e todo mundo, inclusive a nossa juventude, não depende de carro, vodca e tênis. Pode ter diversão, mas não uma estigmatizada. Podemos ír à praia paradisíaca, mas o carro pode ser um fusca. A festa pode ser muito legal, mas fui de sapatos comuns, e bebi água por ser uma opção pessoal.

No final de tudo, se tirássemos o carro, a vodca e o tênis, veríamos que tais marcas ideais são apenas objetos. Poderia ser uma garrafa de água. Ou mesmo um fuquinha 66. Por que não sandálias confortáveis? É a mídia. São os cérebros.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Preto e branco

É interessante o como as cores possuem poderes sobre as atitudes das pessoas. Não tenho nenhum estudo sobre a influência delas em nosso cotidiano - é só observarmos as cores específicas para os comerciais de nosso dia-a-dia - o vermelho para os refrigerantes de cola, o marrom para o café e assim vai.

E por que não dizer que isso acaba acontecendo também com o nosso vestuário? E como acontece! Muitas pessoas estudam a influência das cores das roupas e seus efeitos psíquicos. Se fôssemos falar das roupas íntimas, já nos remeteríamos ao vermelho e ao preto como cores provocantes. Mas não quero me ater a este detalhe (Infelizmente...), dado que me me refiro as roupas de uso cotidiano (não que aquelas não possam ser, mas não é disso que cá estou me referindo...)

Falo aqui das roupas brancas e roupas pretas. As alternativas mais populares dos nossos dias atuais. Não sabe que cor usar? Manda o preto que tá dentro! Ou o branco.

Mas o branco suja. Facilmente. Bom, pelo menos é essa a mentalidade que nós acabamos tendo quando estamos utilizando a roupa branca. A mancha fica evidente para as pessoas - lá está ela - acusando o indivíduo que acabou de comer uma bela macarronada ou que acabou limpar a mão suja na roupa. Fica tudo evidente.

Assim como as coisas também não ficam evidentes quando usamos a cor preta. Molho? Desaparece. Aquela limpadinha na camiseta por falta de toalha? Sumiu! O mundo fica mais simples com a cor preta, as coisas existem e ao mesmo tempo desaparecem!

Desaparecer existindo: um título suficientemente filosófico com profundidade suficientemente real. Não podemos jamais abandonar o fato de que gostamos de esconder nossos mais tristes sentimentos em detrimento a outros. Gostamos de esconder nossas gordurinhas por trás de uma cor que retira o contorno. Maquiamos toda a situação po trás de uma roupa. Aliás, qual roupa merece um belo molho, a branca ou a preta?

Limpamos muito bem a roupa branca, utilizamos alvejantes e sabões ultra potentes como forma de poder recuperar o branco perfeito. A mancha nos incomoda. Mas a roupa preta não merece atenção?

Mereceria. Se colocássemos a roupa preta de molho, talvez poderíamos ver a quantidade da sujeira encrustrada em seu tecido. Mas, para que nos desgastarmos tanto com um pedaço de pano que esconde tudo?

Vamos limpar o que é evidente! A roupa branca deve ser impecável. É com ela que temos mais cuidado.

É com ela que mantemos o nosso rótulo em dia. Que colocamos a prova todo o nosso medo de falhar ou de demonstrar desleixo. Mas com a roupa branca temos o simples costume de já saber que ela terá uma bela de uma atenção na próxima lavada. A preta, ah, ela esconde. Mas está suja.

A roupa preta é a verdadeira revelação do caráter do ser humano - evidentemente não gostamos de demonstrar nossos erros e problemas, então andamos sossegadamente pelas ruas como se nada estivesse acontecendo.

E assim vivemos, como se nenhuma mancha na nossa vida existisse, ou mesmo como se a roupa preta fosse evidentemente preta. Sem sujeiras evidentes.


Não conheço um dentista ou um médico que use ao menos um jaleco na cor preta. Ou mesmo um cabeleireiro. E por que não pastor? É a forma de mostrarmos nossa pureza diante das situações cotidianas - o branco do médico nos acalma e nos demonstra segurança. De fato pode ser uma forma da roupa ficar evidentemente marcada contra qualquer sujeira e não haver contágio de alguma doença por aquele pedaço de tecido. Mas branco nos acalma.O ambiente fica mais leve.

Assim como acreditamos que a roupa branca também auxilia a passagem do ano novo. Misticamente ou por costume socio-cultural usamos o branco no final do ano para um pedido generalizado de paz - como um rito comum entre as pessoas de demonstrarem seus sentimentos perante si mesmos. De transparência, beleza evidente para um bom ano. É generalizado, a cor é predominante.

Mas o branco é o disfarce do dia 31 de dezembro - no dia seguinte, o branco é trocado facilmente pela roupa normal, e tranquilamente costumamos ouvir das bocas brasileiras que todos aqueles desejos de um ano melhor, de mais prosperidade, ficaram manchados na roupa do ano passado.

Entre preto e branco, somos indivíduos que medem nossos sentimentos por meio das evidências cotidianas. Escondemos e mostramos. Escondemos nossas manchas que existem em nosso interior. Evitamos nos manchar para que ninguém possa ver nossas falhas. Deixamos as nossas manchas muito bem afastadas de nossa falsa brancura. E a roupa preta continua suja. E limpa ao mesmo tempo, escondendo nossas negras falhas.

Limpeza os dois lados precisam ser bem lavados. Assim como devemos enxergar aquilo que escondemos. Ou deixar que as pessoas vejam nossas falhas, sem que tenhamos vergonha.

domingo, 25 de abril de 2010

Pedintes e fezes

Cheiros são agradáveis ou desagradáveis. Não descobri a América fazendo a afirmação anterior, mas agimos de forma repulsiva a certos cheiros desagradáveis. E quem dera fossem apenas cheiros.

A Avenida das Esmeraldas é um ponto característico da cidade de Marília, onde os jovens se encontram como forma de distração, as pessoas praticam a caminhada e a corrida e são vendidas as mais caras roupas da cidade. Querendo ou não, um ponto popular.

Quem frequenta a Avenida das Esmeraldas sabe o como ela é movimentada em deteminados horários. No final da tarde durante a semana e ao longo de toda a manhã são os horários preferidos pelo público em geral.

Além da elite mariliense, dos atletas, dos jovens, temos a parte dos abandonados. Alguns transeuntes, caracteristicamente chamado de pedintes assentam em alguns dos bancos deste espaço. Como sempre são despercebidos,afastados ou isolados. Causam desconforto a quem está ali.

Quem anda percebe sorrateiramente; quem corre, apenas vê seus vultos. Passam totalmente desapercebidos e por que não dizer são ignorados?

Não seria desapercebido se os frequentadores não percebessem algo que incomoda mais ainda que a presença humana. O odor.

Eu poderia muito bem falar do odor da ausência de banho, da cachaça ou mesmo da urina das roupas dos pedintes. Meu foco é outro. Não é de dizer que eles fedem e isso incomoda. São outos tipos de rastros.

As fezes. Sim, as fezes, algo que todo e qualquer ser humano elimina de seu corpo. Uns tem alguma dificuldade em eiminar, outros eliminam até demais. Porém a relação Esmeraldas-fezes é que alguns indivíduos utilizam a partes atrás da cerca viva que tem naquele espaço, que separa a área do trajeto de caminhada da área da linha do trem.

O incômodo está no odor eliminado pelas fezes humanas. Comumente elas são facilmente identificáveis. E toda as pessoas que passam por lá percebem facilmente que se trata de fezes humanas. Tampam o nariz, reclamam em voz alta. Incomoda.

O cheiro das fezes humanas é um verdadeiro incômodo ao nariz humano, visto que se trata de um resíduo eliminado ( que não faz mais bem), e que o próprio odor é um sinal de evolução humana, para não ser reaproveitado.

O futum característico também é percebido da mesma forma que os pedintes. Incomoda, é sentido pelos nossos órgãos sensoriais rapidamente e depois esquecemos. E por incomodar, saimos de perto ou ignoramos.

Não estou dizendo que devemos ser admiradores das fezes. Mas poderíamos muito bem ter um banheiro público que pudesse oferecer um espaço digno para as pessoas ( e deixo muito bem claro que não estou dizendo que as fezes é dos pedintes, mesmo sabendo que a maior probabilidade é de que seja deles) fazerem cocô. Não estou dizendo que deverímos ser admiradores dos pedintes, mas se pudéssemos oferecer um espaço público de auxílio para essas pessoas, com tratamento psicológico e tudo, seria uma vida positiva a mais na sociedade.

Mas preferimos considerar como um fato de incômodo e sair de perto. O esforço de direcionarmos ou de resolvermos, dá muito trabalho. Mas enquanto formos pessoas acomodadas a nossa própria realidade, veremos pedintes como pessoas dignas de serem ignoradas. Tal qual as fezes. Andar e sair de perto para não ser incomodados. E não botarmos um fim nisso. O nosso IPTU é um dos mais baratos do Brasil, não é verdade, por que Marília deveria se preocupar com isso, não é mesmo? Banheiro público ou albergue novo não tem o por que de e estourar rojão, né?

E continuamos fingindo que tudo está muito bem, obrigado.

sábado, 10 de abril de 2010

Respeito religioso

Não é estranho que quando entramos em qualquer que seja a repartição pública ou mesmo nas audiências em tribunais de foruns locais, observamos nitidamente que a imagem que está em destaque, é a cruz, símbolo do cristianismo.

Nunca tive nada contra e jamais terei. Trata-se da representação de uma das mais antigas e mais preponderantes religiões do mundo. Mas o que mais me intriga é o fato de estarmos em um estado considerado laico. Se é laico, por que uma entre tantas religiões?

O fato está na diversidade religiosa que temos no Brasil. Desde as religiões de tradição africana até nas religiões de outras nações que fixaram raízes no Brasil. Vide a tabela divulgada pelo IBGE (2000):



Logo, percebemos evidentemente que a diversidade religiosa do Brasil está muito além daquilo que imaginamos. Costumo ouvir que o Brasil é um país cristão. Se formos considerar os números, podemos reparar que que a Igreja Católica representa uma maioria. Mas quando dizemos que o Brasil é "cristão", de certa maneira eliminamos as outras religiões e até mesmo as pessoas que não possuem religião alguma. Então o Brasil não pode ser considerado um país cristão e sim um país multirreligioso, cuja religião de maior número de adeptos é o cristianismo.

Dentro deste mesmo aspecto, podemos pensar: já que vivemos num estado laico, cuja representatividade religiosa não deve ser marcada pela religião mais numerosa mas sim pelo respeito à todas e a todos os cidadãos, por que a cruz?



A mesma coisa está na referência das cédulas de dinheiro. É só observarmos um pouco mais atentamente que veremos estampado "Deus seja Louvado". Sem problema, talvez seja uma forma de agradecimento quanto a importância da cédula, mas do mesmo ponto de vista religioso, será que não estamos ignorando os 12 milhões de indivíduos que não tem religião? Será que a moeda em si teria que de fato trazer esse tipo de informação, quando quem a usa não necessariamente crê em "Deus"? E se nossa religião fosse em maioria a umbanda, será que a população cristã aceitaria que fosse impressa nas cédulas "Iemanjá seja louvada" ou qualquer outra divindade.

E por que não dizer o fato de no lugar de termos a cruz na parede dos locais públicos, termos uma imagem do Preto Velho? Poxa vida, incomodou a maioria dos cristãos - essa é a moral/ética (ou a falta dela), a minoria pode ser incomodada, a maioria tem de ser respeitada.

Ainda persistimos em uma coisa chamada hipocrisia. Canso-me de ouvir falarem que tudo isso só acontece por questão dos cristãos serem a maioria. Então essa é a verdadeira brecha para que todos os outros sejam desrespeitados?

Em pensamentos religiosos, meu maior questionamento é o de saber se de fato quem tem direito a privilégios simbólicos ou de ter espaços em cédulas monetárias é a maior fração da população. Então, se os cristãos possuem espaços de símbolos privilegiados e os outros não possuem, essa é a deixa para que possamos dizer que nem todos são iguais perante a lei? Há melhores/maiores e piores/menores?

Parece uma discussão boba, mas de fato precisamos amadurecer a ideia do respeito as outras religiões - de que os espaços públicos não possuem a necessidade de um símbolo religioso - e que a ausência é o respeito a todos.

Hipocrisia é dizer que uma maioria neste caso vence. E que qualquer outra pessoa, que esteja em um ambiente público, que não seja cristã, deve se submeter a outros símbolos aos quais ela não é acostumada. Então vivemos num ambiente de respeito a muitos e desrespeito a poucos. Somos iguais perante a lei em qualquer lugar, menos nos ambientes laicos. E que ensino religioso em escola pública deve abranger todas as religiões, e não apenas uma religião. É ensino, e não doutrinação. 

Já passou a hora de virarmos essa página e tornarmos o respeito as outras religiões por meio da ausência de qualquer símbolo como forma de igualdade entre todos, independente da religião. Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal, a última e mais poderosa instância do judiciário brasileiro, será o seu bastião de desprespeito a todas as outras religiões.

O Brasil é muito mais do que imaginamos. Religiosamente, o pensamento do que seja o "respeito às minorias" é muito medíocre, mas estamos em tempo de sermos mais polidos.

sábado, 3 de abril de 2010

Mãos

É interessante o como nós seres humanos estamos habituados a utilizarmos nossas mãos. Parece uma temática simples, porém mais complexa do que se imagina.

A mão é a extremidade dos membros superiores do ser humano - haja visto que especificamente possui uma série de ossos que compõem e dão o formato peculiar para os humanos.

Nossos quirodáctilos, como alguns intelectuais das biológicas denominam, possuem uma característica que é só nossa e somente nossa: a utilização do dedão como forma de agarrar e poder pegar e criar objetos. Sendo assim, podemos utilizar a mão como um todo não apenas como uma simples extensão, mas como uma ferramenta ágil, com o objetivo de tornar as tarefas detalhadas.

E são: a quantidade de objetos criados pelo homem por questão do alto desenvolvimento evolutivo de dois simples órgãos, tornou o homem extremamtne distinguível dos outros animais. As mãos demonstram claramente o quanto dominamos os detalhes diante de uma natureza complexa. Responsbilizamos todos os atos do homem por causa de simples reações nervosas, que movem falange por falange, e estas, os objetos criados por elas. E para elas.

Com a mão, chegamos onde jamais nenhum outro ser no planeta Terra chegou. Fomos capazes de manipular pedras para que elas se transformassem em facas e pontas de lanças e também fomos capazes de com pedaços de carvão, fazer pinturas que registrassem os pensamentos abstratos do homem. E das pinturas, desenvolver técnicas de escrita, cujo desenvolvimento deve-se única e exclusivamente por nós homens podemos utilizar com bastante maestria as mãos.

Não posso dispensar a possibilidade que cá tenho de tanto utilizar-me das mãos para pressionar teclas que, demonstram em uma tela, qual o desejo de escrita deste que vos escreve?

Há quem acredite nos poderes de nossas mãos. Na forma com a qual ela [e utilizada em orações, unidas e dedos unidos e esticados. Aos céus, procurando um refúgio tal qual uma criança pede colo a uma mãe, no coração. Como forma de cura, no toque mágico, na transmissão de energias em mãos dadas ou em mãos em cima da cabeça.

No toque, como uma ferramenta capaz de transmitir a qualquer outro corpo uma forma de expressar emoções - no cumprimento entre mãos, no afago, na mão amiga e na mão no ombro e em outras coisas indevidas (hihi!) mas que acabam transformando a mão em uma ferramenta definitivamente eficaz. Ahan.

A mão dos gestos, da comunicação pela distância, de um estalar de dedos como forma de chamar a atenção para algo ou alguém, ou mesmo por meio da libras, tornando o surdo-mudo passível a comunicação comum e simples entre o mundo dos falantes e ouvintes.

Somos capazes de manipular nossos desejos com as mãos. De girar, mover e criar com elas. E de destruir também.

Desde que o homem percebeu que com a destresa das mãos poderia criar ferramentas, percebeu o quanto que ela poderia auxiliá-lo na caça. Mas jamais imaginaria que tudo aquilo que era utilizado para os animais poderia ser utilizado contra poss[iveis inimigos humanos. A própria seta mirada no touro selvagem poderia ser a seta mirada contra uma ameaça humana.

E assim também se desenvolveu técnicas de armamentos extremamente avançadas em que o homem não se preocuparia em ter de chegar perto do alvo - e em distância poderia matar. Com o revólver, pressiona-se o gatilho para fazer funcionar o revólver, assim como pressiona-se o botão para liberar a mais forte das bombas contra o inimigo. Temos técnicas de fala que ativam mecanismos, mas nada como uma forma mais precisa do que fazer com que fisicamente a ação seja realizada.

A mão do tapa na cara, como símbolo de violenta reação contra algo. Em forma de soco, como forma de amassar ou de afastar, lembrando a forma mais primitiva de luta do homem contra as adversidades e contra o próprio homem.

 E por que não a mão ausente ao se movimentar uma simples alavanca, sendo esta responsável por acender uma lâmpada de acendimento periódico e de interrupções diversas ao longo do tempo? Traduzindo, por que não considerarmos a preguiça do homem ao acionar a seta dos carros para indicar qual a movimentação do carro, evitando assim colisões e atropelamentos?

Por que não citar também a mão do "dedo do meio", que demonstra ao próximo qual o destino que queremos que o próximo deveria "tomar"? Das mãos estendidas a um líder nazi-totalitário, demonstrando seu poder e força, como forma de manipular a massa humana em favor de um ideal destruidor de criar um novo e inútil deus?

Trocando em miúdos, a mão é o símbolo da evolução do homem e de sua própria destruição. A utilização da mesma reflete o quanto o homem preserva sua sobrevivência, e em nome dela, criar mecanismos de auto-proteção por meio da destruição.

Ao compararmos o cérebro com a mão, esta é muito menos complexa. Formado de músculos, nervos, pele e articulações de movimento, as mãos não raciocinam. Não pensam. Não calculam. Mas expressam da forma mais primitiva, os desejos do homem. Do prazer à explosão. Da vida ã morte. Não é a sua complexidade, mas sua utilidade. Do primitivo agarrar ao atual destruir. Um simples órgão que com poucos movimentos é capaz de demonstrar a evolução e o retardo do homem.