sábado, 10 de abril de 2010

Respeito religioso

Não é estranho que quando entramos em qualquer que seja a repartição pública ou mesmo nas audiências em tribunais de foruns locais, observamos nitidamente que a imagem que está em destaque, é a cruz, símbolo do cristianismo.

Nunca tive nada contra e jamais terei. Trata-se da representação de uma das mais antigas e mais preponderantes religiões do mundo. Mas o que mais me intriga é o fato de estarmos em um estado considerado laico. Se é laico, por que uma entre tantas religiões?

O fato está na diversidade religiosa que temos no Brasil. Desde as religiões de tradição africana até nas religiões de outras nações que fixaram raízes no Brasil. Vide a tabela divulgada pelo IBGE (2000):



Logo, percebemos evidentemente que a diversidade religiosa do Brasil está muito além daquilo que imaginamos. Costumo ouvir que o Brasil é um país cristão. Se formos considerar os números, podemos reparar que que a Igreja Católica representa uma maioria. Mas quando dizemos que o Brasil é "cristão", de certa maneira eliminamos as outras religiões e até mesmo as pessoas que não possuem religião alguma. Então o Brasil não pode ser considerado um país cristão e sim um país multirreligioso, cuja religião de maior número de adeptos é o cristianismo.

Dentro deste mesmo aspecto, podemos pensar: já que vivemos num estado laico, cuja representatividade religiosa não deve ser marcada pela religião mais numerosa mas sim pelo respeito à todas e a todos os cidadãos, por que a cruz?



A mesma coisa está na referência das cédulas de dinheiro. É só observarmos um pouco mais atentamente que veremos estampado "Deus seja Louvado". Sem problema, talvez seja uma forma de agradecimento quanto a importância da cédula, mas do mesmo ponto de vista religioso, será que não estamos ignorando os 12 milhões de indivíduos que não tem religião? Será que a moeda em si teria que de fato trazer esse tipo de informação, quando quem a usa não necessariamente crê em "Deus"? E se nossa religião fosse em maioria a umbanda, será que a população cristã aceitaria que fosse impressa nas cédulas "Iemanjá seja louvada" ou qualquer outra divindade.

E por que não dizer o fato de no lugar de termos a cruz na parede dos locais públicos, termos uma imagem do Preto Velho? Poxa vida, incomodou a maioria dos cristãos - essa é a moral/ética (ou a falta dela), a minoria pode ser incomodada, a maioria tem de ser respeitada.

Ainda persistimos em uma coisa chamada hipocrisia. Canso-me de ouvir falarem que tudo isso só acontece por questão dos cristãos serem a maioria. Então essa é a verdadeira brecha para que todos os outros sejam desrespeitados?

Em pensamentos religiosos, meu maior questionamento é o de saber se de fato quem tem direito a privilégios simbólicos ou de ter espaços em cédulas monetárias é a maior fração da população. Então, se os cristãos possuem espaços de símbolos privilegiados e os outros não possuem, essa é a deixa para que possamos dizer que nem todos são iguais perante a lei? Há melhores/maiores e piores/menores?

Parece uma discussão boba, mas de fato precisamos amadurecer a ideia do respeito as outras religiões - de que os espaços públicos não possuem a necessidade de um símbolo religioso - e que a ausência é o respeito a todos.

Hipocrisia é dizer que uma maioria neste caso vence. E que qualquer outra pessoa, que esteja em um ambiente público, que não seja cristã, deve se submeter a outros símbolos aos quais ela não é acostumada. Então vivemos num ambiente de respeito a muitos e desrespeito a poucos. Somos iguais perante a lei em qualquer lugar, menos nos ambientes laicos. E que ensino religioso em escola pública deve abranger todas as religiões, e não apenas uma religião. É ensino, e não doutrinação. 

Já passou a hora de virarmos essa página e tornarmos o respeito as outras religiões por meio da ausência de qualquer símbolo como forma de igualdade entre todos, independente da religião. Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal, a última e mais poderosa instância do judiciário brasileiro, será o seu bastião de desprespeito a todas as outras religiões.

O Brasil é muito mais do que imaginamos. Religiosamente, o pensamento do que seja o "respeito às minorias" é muito medíocre, mas estamos em tempo de sermos mais polidos.

sábado, 3 de abril de 2010

Mãos

É interessante o como nós seres humanos estamos habituados a utilizarmos nossas mãos. Parece uma temática simples, porém mais complexa do que se imagina.

A mão é a extremidade dos membros superiores do ser humano - haja visto que especificamente possui uma série de ossos que compõem e dão o formato peculiar para os humanos.

Nossos quirodáctilos, como alguns intelectuais das biológicas denominam, possuem uma característica que é só nossa e somente nossa: a utilização do dedão como forma de agarrar e poder pegar e criar objetos. Sendo assim, podemos utilizar a mão como um todo não apenas como uma simples extensão, mas como uma ferramenta ágil, com o objetivo de tornar as tarefas detalhadas.

E são: a quantidade de objetos criados pelo homem por questão do alto desenvolvimento evolutivo de dois simples órgãos, tornou o homem extremamtne distinguível dos outros animais. As mãos demonstram claramente o quanto dominamos os detalhes diante de uma natureza complexa. Responsbilizamos todos os atos do homem por causa de simples reações nervosas, que movem falange por falange, e estas, os objetos criados por elas. E para elas.

Com a mão, chegamos onde jamais nenhum outro ser no planeta Terra chegou. Fomos capazes de manipular pedras para que elas se transformassem em facas e pontas de lanças e também fomos capazes de com pedaços de carvão, fazer pinturas que registrassem os pensamentos abstratos do homem. E das pinturas, desenvolver técnicas de escrita, cujo desenvolvimento deve-se única e exclusivamente por nós homens podemos utilizar com bastante maestria as mãos.

Não posso dispensar a possibilidade que cá tenho de tanto utilizar-me das mãos para pressionar teclas que, demonstram em uma tela, qual o desejo de escrita deste que vos escreve?

Há quem acredite nos poderes de nossas mãos. Na forma com a qual ela [e utilizada em orações, unidas e dedos unidos e esticados. Aos céus, procurando um refúgio tal qual uma criança pede colo a uma mãe, no coração. Como forma de cura, no toque mágico, na transmissão de energias em mãos dadas ou em mãos em cima da cabeça.

No toque, como uma ferramenta capaz de transmitir a qualquer outro corpo uma forma de expressar emoções - no cumprimento entre mãos, no afago, na mão amiga e na mão no ombro e em outras coisas indevidas (hihi!) mas que acabam transformando a mão em uma ferramenta definitivamente eficaz. Ahan.

A mão dos gestos, da comunicação pela distância, de um estalar de dedos como forma de chamar a atenção para algo ou alguém, ou mesmo por meio da libras, tornando o surdo-mudo passível a comunicação comum e simples entre o mundo dos falantes e ouvintes.

Somos capazes de manipular nossos desejos com as mãos. De girar, mover e criar com elas. E de destruir também.

Desde que o homem percebeu que com a destresa das mãos poderia criar ferramentas, percebeu o quanto que ela poderia auxiliá-lo na caça. Mas jamais imaginaria que tudo aquilo que era utilizado para os animais poderia ser utilizado contra poss[iveis inimigos humanos. A própria seta mirada no touro selvagem poderia ser a seta mirada contra uma ameaça humana.

E assim também se desenvolveu técnicas de armamentos extremamente avançadas em que o homem não se preocuparia em ter de chegar perto do alvo - e em distância poderia matar. Com o revólver, pressiona-se o gatilho para fazer funcionar o revólver, assim como pressiona-se o botão para liberar a mais forte das bombas contra o inimigo. Temos técnicas de fala que ativam mecanismos, mas nada como uma forma mais precisa do que fazer com que fisicamente a ação seja realizada.

A mão do tapa na cara, como símbolo de violenta reação contra algo. Em forma de soco, como forma de amassar ou de afastar, lembrando a forma mais primitiva de luta do homem contra as adversidades e contra o próprio homem.

 E por que não a mão ausente ao se movimentar uma simples alavanca, sendo esta responsável por acender uma lâmpada de acendimento periódico e de interrupções diversas ao longo do tempo? Traduzindo, por que não considerarmos a preguiça do homem ao acionar a seta dos carros para indicar qual a movimentação do carro, evitando assim colisões e atropelamentos?

Por que não citar também a mão do "dedo do meio", que demonstra ao próximo qual o destino que queremos que o próximo deveria "tomar"? Das mãos estendidas a um líder nazi-totalitário, demonstrando seu poder e força, como forma de manipular a massa humana em favor de um ideal destruidor de criar um novo e inútil deus?

Trocando em miúdos, a mão é o símbolo da evolução do homem e de sua própria destruição. A utilização da mesma reflete o quanto o homem preserva sua sobrevivência, e em nome dela, criar mecanismos de auto-proteção por meio da destruição.

Ao compararmos o cérebro com a mão, esta é muito menos complexa. Formado de músculos, nervos, pele e articulações de movimento, as mãos não raciocinam. Não pensam. Não calculam. Mas expressam da forma mais primitiva, os desejos do homem. Do prazer à explosão. Da vida ã morte. Não é a sua complexidade, mas sua utilidade. Do primitivo agarrar ao atual destruir. Um simples órgão que com poucos movimentos é capaz de demonstrar a evolução e o retardo do homem.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Tradições gastronômicas

Uma das coisas mais interessantes do período em que morei na cidade de Maringá, foi a tentativa de definições de qual seria o prato típico daquela cidade. Aguns historiadores procuravam saber quais eram os pratos típicos no tempo de sua colonização, nos idos da década de 40 no século XX. Pois é, já estamos falando em "século passado". É.

Um dos historiadores com quem conversei sobre o assunto disse que uma das escolhas poderia ser uma iguaria estranha denominada paca com batata. Aliás, para os dias de hoje, um prato nada viável, apesar de terem pacas criadas em cativeiro para fins comerciais. Tadinha das pacas.

Enfim, a procura de um prato típico até 2005 era algo que corria entre os historiadores locais como uma forma de ascender uma característica própria da cidade - algo que evidenciasse a característica gastronômica tradicional.

Porém, trazer a paca com batata da brumas do tempo seria como fazer como o esperanto fosse língua oficial no sul do recôncavo baiano. Nada feito.

Nada como a opinião popular. A unanimidade vence. Nada como uma escolha indiretamente realizada, sem a oficialidade historiográfica positivista. Nada de paca. Nada de Batata. Aliás, com batatafica mais gostoso. É do povo o famoso cachorrão, ou o famoso cachorro-quente prensado. Um grande quebra-galho para os estômagos maringaenses, tal como fora para minha fome universitária.

Em qualquer espaço maringaense lá está um carrinho de cachorrão, emitindo seus engordurados sabores por entre suas chaminés metálicas. Poético não? Uma tradição aprovada pela população que existe sem a persistência de imposições. E as pacas agradecem, contentes e satisfeitas.

Quem dera minha discussão aqui fosse sobre pacas e cachorrões, quando na verdade é a de sempre procurarmos uma tradição alientar que demonstre o potencial gastronômico de um macroespaço como de um microespaço.

Em macroespaço poderia voltar ao estado do Paraná e discutir a famosa disputa Morretes-Paranaguá-Antonina. Pode parecer 3 cidades do litoral paranaense, mas que disputam entre si a melhor receita de um dos pratos mais característicos da região o barreado.

Trata-se de uma iguaria feito empanela de barro, com carne de 2ª (ou não) que vai ao forno de lenha entre 12 e 24 horas, selado como uma "panela de pressão", onde a vedação dá-se com uma maçaroca de farinha passada em toda a volta da tampa para que nada vase. Restaurantes mais modernos os fazem em fogareiros à gás, enquanto os mais tradicionalistas mantém o fogão-à-lenha. Dizem os mais tradicionalistas que soltam-se fogos de artifícios como anúncio do prato. E antes de irem à mesa, os moradores locais dançariam um fandango. Haja paciência. Bonito, mas imagina isso a toda hora que algum restaurante pedisse um barreado? Haja salto e pólvora!

Tradição esta carrega a característica de sempre voltarmos aos tempos das fumaças dos fogões-à-lenha, da paciência. Pela ausência da tecnologia, pelas senhoras de receitas difíceis guardadas na memória. Já ouvi falar do barreado feito na panela-de-pressão. Soou saboroso, mas nem um pouco tradicional. Nem parece que seja barreado, pode ser qualquer outro prato, mas menos a tradição disputada no litoral paranaense.

No microespaço temos a nossa tentativa de chegarmos perto da receita tradicional, da deliciosa forma de enfeitiçar as visitas com um belo prato que marque a estada como algo atraente e marcante.

Quem dera que umadas maiores tradições em microespaço qe tnto vemos em qualquer lr brasileiro nada mais é do que o bome velho churrasco.

Carvão. Carne. Churrasqueira. Táboa de carne. Caipirinha. E uma tarde de domingo queé pra compensar a seguda-eira que lá vem. Uma tarde agradabilíssima que poderia ser substituída por uma frigideira, um almoço dentro de casa e ponto final. E por que não tentarmos ensaiar um churrascoem uma belíssima churrasqueira elétrica? Não!

A churrasqueira elétrica não traz em seu conceito o fato de tentar acender com álcool ou óleo o carvão (de reflorestamento faça-me o favor). Botou na tomada, está acesa. Ponto final.

Por que não lembrar dos gaúchos com suas fartas costelas de boi e seu quente chimarrão a passar de mão em mão enquanto a brasa esquenta as fibras musculares deste tão tenro pedaço bovino? 

A churrasqueira à carvão tem em si, desde à mais simples até a mais complexa, o fato de  cumprir-se rituais que possam trazer o maior prazer possível - do preparo da carne até o servir ao grupo. Algo que marca uma forma pessoal de voltar a um passado sem eletricidade, mas com o domínio do fogo, o domínio da carne e o domínio dos sabores - areceita própria- a tradição familiar, que marca aquele churrasqueiro, aquela família e aquela bela tarde dominical. E sem eletricidade, e se tiver, que seja para a música.

Entre o micro e o macro, somos seres que gostam de tradições, de rituais e de costumes. Do cachorrão ao fim da balada até o barreado com fandango. Do churrasco à feijoada com caipirinha. A mesa ainda é o convite aos bons costumes. A mesa ainda é o chamarisco para o passado tradicional. Para a distância da cidade. Para a inexistência de preocupações tecnológicas. Para uma marca regional.

Admiramos a permanência e a persistência das receitas e dos cozimentos populares, por mais que nossa sociedade se considere progressiva e tecoogicamente avançada. E sem paca, por favor!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Sonho de Jogador

Quando iniciei a minha carreira de professor pelas Escolas públicas, sempre ouvía entre os alunos o fato de quererem ser jogadores de futebol. Era constante, imaginavam-se em um treino de algum jogador famoso, faziam em seus jogos da escolas firulas tais quais os seus ídolos dos campos profissionais almejavam.

Também dera: quem não gostaria de ter uma carreira que um jogador de futebol tem? Inicia aos 15 anos descoberto em um clubinho de futebol para crianças e adolescentes, progride, chega aos campos profissionais, passa a ser declarado como um dos melhores jogadores de seu time e ganha fortunas ao chutar uma bola?

Um sonho de um futuro confortável - uma carreira meteórica que não depende de esforço mental para evoluir e crescer. E não podemos nos esquecer da vida prazeirosa das noitadas e das melhores mulheres. Quem não gostaria em sã consciência?

Mas somos enganados pela mídia - acabei de assistir um trecho do globo esporte em que um dos jogadores dos Santos "tunava" o seu carro, e para garantir que não era rico, estaria dividindo em 10 parcelas.

Quer vida melhor que essa? Jovem, fazendo o que sempre quis fazer, conquistando posições na profissão que sempre quis ter?

É nessas horas que nós homens não podemos reclamar quando as mulheres sonham com uma vida de princesa. Também temos esse desejo, porém em moldes totalmente contrários.

Esquecemos que um indivíduo descoberto aos 15 ou aos 17 anos é apenas um entre tantos. Não quero dizer que isso seja ruim, mas a peneira passa e passa muito. E depende de muito esforço do indivíduo - uma pequena falha, um pequeno descanso, e o campo de visão de um olheiro passa para outro dos 22 jovens talentos em jogo. Trocando em miúdos, é busca de um - os outros 21 já foram descartados.

A carreira bela, fantástica, magnífica, que garante "flashes" e elogios, vai até uma certa idade. Infelizmente jogador de futebol tem tempo curto de "bola no campo". Aos 35 já é considerado como velho para tal profissão. Ganha bem, e pode viver para o resto da vida parando aos 40 (quem sabe), mas para no anonimato. Talvez quem sabe sendo um treinador de um time de futebol. E outra vez a peneira balançou - quantos dos ex-jogadores continuam na profissão, como técnicos? Podem viver bem, mas carregam para si a sina de serem indivíduos que não prestam mais para aquilo que faziam.

Não prestar mais para aquilo que fez, que o fez feliz, que o deixou rico é deveras depressivo. Dizer que o gramado, onde tantas bolas rolaram, onde tanto suor e grito foram gastos não é mais para ele. E não é. Basta a torcida reparar na baixa condição física e pronto, a brilhante carreira fica escondida em algum useu temático ou na mente de algum torcedor extremamente ligado no tema.

Nos assusta quando dizem que 72% dos jogadores recebem de 1 a 2 salários mínimos - esse número me assustou e assustaria a qualquer um que acredita que esse número é mais real do que imaginamos.



Acabar com o sonho de um jovem? Jamais! Não podemos destruir aquilo que faz com que o indivíduo levante sua cabeça no dia seguinte e faz com que ele se torne aos poucos um bom jogador de futebol. Mas a realidade deve ser evidente - a peneira é grande e com furos cada vez menores. Exige inteligência. Exige treino. E a carreira é curta. Os holofotes se apagam. É chegada a hora de pendurar as chuteiras.

A realidade dói para qualquer profissão - médico, jogador de futebol e gari. Exige esforço antes, durante e depois. Mas não podemos abandonar desde pequeno a situação de sermos ao menos educados e dar como desculpa o sonho de ser jogador para ser um verdadeiro "mala" em sala de aula desde pequeno por que vai ser um brilhante jogador de futebol. E isso eu já vi "aos baldes" em algumas salas de aula.

É a velha situação: A consequência sempre vem depois da causa, e não o contrário. Achar que já é brilhante antes é deveras burrice.

terça-feira, 2 de março de 2010

Só Café

É incrível como nós brasleiros somos habituados a tomar café. Se trata da bebida mais socializante do Brasil. É comum sairmos de uma empresa e tomarmos um café. De irmos à um médico e na bendita sala de espera, estar ele lá, faminto para preencher os estômagos dos brasileiros adoentados.

Basta visitarmos a nossa tão querida tia que ela nos receberá com um café quente, que ao ser coado, hipnotiza qualquer brasileiro em sã consciência com seu aroma indescritível.

Basta conversar com os fumantes e ver a emoção que eles expressam em acompanhar o fumar de seu cilíndrico viciante com uma xícara de café. Expressam-se de forma quase delirante. Uma combinação aparentemente perfeita.

 Fumando ou não, o café é a bebida caracteristicamente brasileira.

E caracteristicamente fomos o país que introduzimos tal hábito nos nossos queridos colegas estadunidenses. Mas também a situação é de duas vias: eles queriam comprar, e nós queríamos vender. É só per o como a economia cafeeira comandou pensamentos sócio-político-econômicos no Brasil no século XIX e XX. E não podemos dispensar que o café ainda é poderoso, ele está presente em todos os lares brasileiros.

E em lares estadunidenses também. E também nas ruas. Nos cafés gelados, caracteristicamente como uma das mais refrescantes bebidas vendidas no verão dos Estados Unidos. E não precisa estar frio para se tomar café nos States. Ele também está nas empresas, escritórios, naquele bendito lugar em que os funcionários podem tirar 1 minutinho para se livrar das obrigações corriqueiras que aumentam as obrigações burocráticas particulares.

Está lá o café. Caracteristicamente fraco, pois americano não toma o nosso café forte. Como dizem os brasileiros que vão para lá, dizem que o café é fraco. Nunca bebi café americano muito menos o famoso café gelado americano. Brasileiro sim. E que o nosso café brasileiro é forte, é.

Mesmo sendo fraco, me espantou a necessidade pela qual os americanos sobrevivem em torno do nosso café sul-americano. Ao conversar com uma de minhas amigas, cuja residência atual é a cidade de Norcross, próximo à cidade de Atlanta, GA( Abreviação de Estado da Georgia).

E justamente na empresa onde laboriosamente ela traça seu cotidiano para um fim de mês assalariado, é que está o nosso fervente café. E espantosamente exposto.

Neste bendito diálogo que tive nesse final de semana, revelara a própria que  tinha que levar galões de água para o trabalho e colocá-los embaixo da escrivaninha dela, caso ela quisesse beber água. Disse água. Sim, aquilo que nós também vemos em qualquer lugar no Brasil, não é oferecido na empresa dela. Se quiser, é da torneira. Mas se quiser café, tem quentinho.

Na mesma hora fiquei bobo de saber uma situação dessas - tem café mas não tem água? Pois é. Eles tomam muito café. A ponto de substituir a água. Por isso mesmo que ela compra os galões de aproximadamente 5 litros e os deixa debaixo da escrivaninha, assim ela é uma das privilegiadas a saborear essa iguaria tão estranha. Água. E ela ainda disse que não encontra em qualquer lugar para comprar a água. "É mais fácil comprar coca-cola do que água."

Parei para comparar: em meus ambientes de trabalho, em todos os lugares temos bebedouros com filtros de água assim como também na sala dos professores temos galões de água para hidratarmos nossas pobres cordas vocais. Imagino minha heroica atividade nos Estados Unidos. Parou de falar? Café. Pausa? Coca-cola.

É espantoso o quanto os hábitos americanos se transformaram e o saudável tornou-se estranho. Não oferecer água mas oferecer café é exagero. Comprar com mais facilidade a coca-cola à água é ver que os costumes lá pela América do Norte anda desvirtuado. Para se hidratar ter que comprar a própria água e deixá-la por baixo da escrivaninha é demonstração de consumismo desvirtuado, em que algo que vicia é trocado por algo que carrega a responsabilidade de manter vivo um ser humano. Não que o café não tenha água, mas água pura como algo desprezado? Depois dizem que o café não vicia. Ahan.

Um dia quem sabe os brasileiros resolvam vender água por lá. E quem sabe isso se torne um hábito, quiçá um vício. Todos tomando água. Uma coisa bem diferente aliás, não? Quem sabe um dia a venda de água não seja o termômetro da economia mundial. E todos se tornem viciados nesse produto extremamente prejudicial, a ponto de oferecerem água nos ambientes de trabalho e quem quiser café, que compre e guarde embaixo da escrivaninha.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Horário do Sol

Como muitos brasileiros, levanto cedo pra não perder o horário. Ou melhor, para não me atrasar. Chegar adiantado é melhor do que atrasado, assim não corro o risco de falhar na minha sã característica de ser um falso-mineiro. Pobre comedor de queijo. Tem a fama de esperar o trem 1 hora antes do horário devido. Manias e manias, diz Eclesiastes, é tudo manias.

Pois bem, até sábado passado, a parte da manhã ainda não tinha a luz de nosso querido Sol. Velho de guerra, persiste em aparecer, ou a Terra persiste em girar em torno do bonitão, sem freio. E que nenhum físico me enxa o saco, não estou com paciência de correções à essa altura do texto.

Logo, as luzes predominantes ao longo de meu percurso até o local de trabalho nada mais são farois iluminando o próprio caminho. E um pouco dos outros também que é pra não deixar de ser egoísta.

De sábado para domingo, voltou o bom e velho horário normal. Que beleza. O Sol no seu tempo certo, a nossa vida na rotina do ciclo dia-noite em prumo. Mais ou menos né?

Não minto se o que mais persistia na cabeça do brasileiro, confuso dentro de um fuso próprio, ou seja, semfuso, acabava vendo o dia alterado em 1 hora a menos. Se era no horário de verão 1 da matina, agora passa a ser meia-noite em ponto.

E o despertador, passa a tocar em seu horário devido, com a presença marcante do Sol! Se por alguns meses eu me acostumei com a ausência da luz, a presença da luz me ofusca.

E me culpa. Como bom não-mineiro e semfuso, acordo antes do toque do despertador com a claridade do Sol passando pelas frestas da casa por causa do sentimento de culpa. E sentimento de raiva pela porcaria do organismo ainda não estar adapatado ao novo horário.

Bastasse imaginarmos que a tradição do horário de verão veio para economizar energia. Mas não economiza a paciência dos proletários brasileiros que se revoltam dia após dia ao acordar em uma manhã escura. E terminar o expediente com o dia claro demais da conta.

Volta o horário normal, começamos os dias com claridades e o fim de expediente, acompanhando o pôr-do-sol.Diz a ANEEL, ou Agência Nacional de Energia Elétrica que a economia varia de 4 a 5%. Bom, assim não há sobrecarga em nenhum lugar do Brasil e todos ficam felizes e satisfeitos com a situação de que não faltará luz.

Agora que estamos em horário normal, reparei no primeiro dia com horário de verão que as senhorinhas que, no horário antigo dormiam em seus travesseiros sossegadamente, agora empunham suas vassouras e começam a varrer suas calçadas como forma de deixar a fachada da casa em bom estado visual. Cena tal que eu não presenciei em nenhum momento matutino no horário de verão. Também dera, a noite, todo gato é pardo. Seguro? Nem um pouco.

Por que não dizer que nos sentimos faltosos na árdua tarefa de, assim que o Sol desponta seus fulgurosos raios, temos que trabalhar? Condicionamento? Que coisa, o ratinho, na sua gaiolinha, em experimentos psicológicos, ganha uma sementinha para se satisfazer ao perceber que o botão a sua frente libera a suculenta alimentação. E nós ganhamos ao recebermos os raios solares em nosso campo de visão, uma estra noção de ter que trabalhar para tocar a vida, ou manter a casa limpa. Comparável não?

Semfuso e Mineiro-sem-registro, independente de 5%, da ANEEL e de qualquer raio-que-me-parta, ainda acordo com o peso na consciência de que algo está errado, que estou atrasado e que é melhor correr. E de que sou manipulado pelos horários que nos são retirados e impostos. E de que o Sol, independente de governo ou da situação, ainda é o Disco solar que manda no Sistema - e nas queridas vovós que preferem a luz solar para limpar as calçadas ante ao perigoso amanhecer escuro. E no meu fuso pessoal. Nessa gaiolinha que serve pra todo mundo se acostumar a apertar um botão no início do mês, para satisfazer nossas necessidades financeiras.

E ainda tem gente que acha os antigos povos eram burros em adotar como principal deus, o Sol.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Vai ser só minha

Tinha estranhado um pouco a letra de uma música quando estava ouvindo o rádio e por um acaso estava tocando uma banda de rock adolescente ( nada contra, para mim esse tipo de música é comum, dado o fato de trabalhar com adolescentes), que vem bombando nos últimos tempos.

Fiquei pensativo por alguns minutos quando comecei a prestar um pouco mais de atenção na letra em si. me incomodou a situação de posse apresentada pela letra. Obviamente o que eu percebi foi algo um pouco superficial, nada de análises acadêmicas, psicológicas e afins. Apenas ouvindo. Pode até parecer aquelas coisas que muita gente gosta de perguntar para os professores de História, se Lucy in the sky with diamonds ou Sem Lenço Sem Documento referem-se ao LSD. ( Tá esperando que eu fale disso agora? Vai ficar a ver navios.)

Pois bem, a canção em questão se trata da múisica da banda Cine chamada Garota Radical.

Na música acima apresentada, percebo a descrição de um indivíduo cuja paixão é voltada para uma garota. O Eu-lírico apresenta uma situação em que tem para si em detalhes as condições de vida da garota, reparando em seus hábitos costumeiros, o fato de "ir às quintas ao Shopping e dedicar os Domingos aos pais", e observando seus gostos e costumes, como "ouvir a banda que ele não escuta". Para ler a letra clique aqui.

E pra tornar a situação desafiadora para o garoto-lírico (kakaak!) toma toco a torto e a direito. Para tanto, o mesmo se conforma e prova que insistirá que um dia tudo isso será revertido, "apostando um beijo que ela o quer", tratando-se de um joguinho da moça.

Até ai tudo bem, o garoto conhece a menina, sabe dos hábitos dela e para tanto, o próprio descreve quem ele é. Seria fácil se ele só falasse na canção quem ela é e deixar sua personalidade de fora. Porém ele precisa provar para ela a causa passional: "Sou egoísta e por isso me entrego a permanecer a gostar cada vez mais e mais e mais e..."

Remontando a situação: Um garoto que se considera egoísta faz questão de provar que conhece a vida da menina, que sabe de seus costumes e para conquistá-la insistirá o quanto for necessário. A bomba da canção, quanto ao sentimento que o eu-lírico apresenta está em dizer que

Te vejo na minha (Te vejo na minha)
Vai ser só minha (Vai ser só minha)
Falo tão sério, é sério você vai
Vai ser só minha (Vai ser só minha)
Vem ser só minha
Vai ser você
Aposto um beijo que você me quer
Bueno, para a canção em si, chama a atenção de qualquer um a exposição egoísta do indivíduo em si. É apresentado repetidamente por uma voz um pouco distorcida que ele a vê em sua própria vida e ela será só dele, insistindo para que ela "perceba" que isso se tornará real, como que provando que tudo o que ele fala, é sério, é real, ele não mentiria sobre seus próprios sentimentos.

Para mim, a canção apresentou, ou representou um sentimento de posse e paixão muito forte - declarar que só será dele e insistir que só será dele é reforçar a situação em si e provar para si mesmo que ela não terá outra alternativa a não ser ele. Poderíamos até falar que é uma insistência do próprio ego para que ele não a esqueça - como quem conversa consigo mesmo, ou como o id que reforça seu próprio ego. Mesmo assim, o sentimento de posse é um reforço de si para si mesmo sobre a outra figura.


Tudo isso só ficou mais esclarecido para mim quando lembrei-me de um caso extremamente passional e possessivo, ocorrido em 2008. Um jovem, que ao ver findar-se seu próprio romance, não se conforma e transforma a situação em um dos cativeiros mais filmados no Brasil - o caso Lindenberg.

Lindemberg Fernandes Alves, atualmente preso, terminara recentemente o namoro com a garota Eloá Cristina Pimentel da Silva. Não conformado com a situação resolveu voltar o namoro de uma forma exagerada. Retornou ao apartamento da guria e a aprisionou por vários dias, como quem força a reatar o namoro. Emprego? Família? Não importava. O caso era a tentativa do retorno do namoro. De uma maneira incomum.

O caso chamou a atenção do Brasil em dois aspectos: em caso das negociações, Lindemberg permaneceu por 4 dias insistindo na situação - em se render e defazer a rendição - o que ocasionou numa preocupação do tempo de cárcere permanecido naquele local e nos possíveis sofrimentos que ele poderia estar ocasionando para Eloá e para sua amiga que também era refém. Num segundo aspecto estava no sentimento possessivo, de um indivíduo de 22 anos que não aceitava ter perdido sua ex-namorada e passionalmente procura a alternativa física, em que o fato de aprisioná-la a faria retornar. Seria o caso da ausência do diálogo - o sentimento de posse e propriedade instalava-se como definitiva ao sentimento do rapaz.

Se trata de uma situação de fragilidade - uma tentativa de reposição de sentimentos - já que não a atenho mais, a terei pela força - já que não consigo pela conversa, já que sou inseguro, partirei para o lado físico, real e saio do imaginário e platônico.

 Trocando em miúdos ( eis que aparece a tão esperada expressão!) para Lindemberg, Eloá "vai ser só minha" e a repetição interior, a voz distorcida que repete no seu ego é a realização física do ato - a prisão e as ameaças.

 Não estou dizendo que a banda Cine tem características possessivas, mas não pude deixar de reparar na proximidade das situações - do Eu-lírico que conhece a vida e insiste que ela só será dele e de Lindemberg que perseguia Eloá, observando sua saída da escola e sendo conhecedor de seus horários. O rapaz procura o domínio da situação assim como o Eu-lírico insiste em conquistá-la, mesmo que receba um não.

 No caso, insistir em alguém que gosta não é um problema, mas sim o exagero, a perseguição, a anulação social do indivíduo ante ao sentimento de posse do outro - isolo ela do resto do mundo e ela só será minha e de mais ninguém.

 As ligações para mim podem ser um pouco mais visitadas por psicólogos ou interessados, mas são sentimentos um tanto quanto revelados. Tudo isso não passa da exarcebação do ciúme.

 Não há problema nenhum em ouvir Cine. Não há problema algum em apaixonar-se, amar. Mas há no exagero da paixão, na perda do auto-controle e do prevalecer do próprio ego contra o outro ego. "Quando um não quer, dois não briga" é um caso a ser revisitado por todos.