Quando o negro entra no cinema em um filme da Marvel, muitas pessoas estranham. Super-herois todos negros, a cultura africana sendo ressaltada? Ouvi de algumas pessoas que eles estavam se achando. Que não precisaria de nada disso.
Quando o negro entra na capela de Windsor para fazer um sermão, entra para tocar com seu violoncelo algumas obras clássicas, e cantar Stand by me em coral no casamento real ocorrido na Inglaterra, nem todos se permitiram a virar a cabeça para ouvir uma interpretação belíssima de uma canção de John Lennon. Antes a pose da pompa que a circunstância proporcionava, não é mesmo? E pra que pensar na pompa quando o Príncipe Charles lia qualquer coisa em silêncio durante a canção?
Quando o negro entra
no elevador, tenha certeza que alguma senhorinha em algum lugar deste redondo mundo ainda apertará contra o seu peito a bolsa cheia de riquezas. A que se remeteria o pensamento desta senhora, quando o jovem negro que ali estava, seguia para seu trabalho?
Quando o negro entra na tela de um cinema, reacende-se ao longo de toda sociedade a possibilidade de verbalizar todos os pensamentos reprimidos a respeito da diferença: isso se chama preconceito. É o branco que sai de cena, é o negro que ganha destaque. O branco é a criança que gosta de ser constantemente mimada e permanece regredida. Quando o branco sai de cena, ele faz birra, nomeia de macaco, nomeia pejorativamente.
Quando o negro entra em uma capela inglesa, diante de um público seleto, percebe que entre eles há a história de perseguições e comandos. Que ali, aqueles brancos todos, souberam o que era segregar na África, sabem o que foi e o que fizeram no Zimbábue, na Nigéria. souberam que os negros que fugiam das perseguições da década de 60 do século XX dos Estados Unidos para a Inglaterra devido a série de perseguições que ocorriam pela luta dos direitos iguais, eram tratados com segregação e ataques em terras da rainha fofa e idosa - a mesma que segurou em seu reino o cetro do Apartheid na África do Sul.
Quando o negro percebe que há alguém que o teme, observa a história viva da segregação promovida pela sociedade brasileira ao longo dos tempos. Que se julga libertadora de escravos mas apenas criou um documento e não promoveu nada para que os ex-escravos pudessem seguir em igualdade em sociedade. Aliás, deu brecha para que eles fossem afastados e segregados: duvidemos por favor que a lei áurea tenha modificado o pensamento dos escravocratas, pois, com certeza a escravidão ficou viva inconscientemente. E conscientemente, pois basta observarmos um pouco na mídia que o facebook virou o lixão pra recolher as asneiras de um uma parcela da população que deixou seu silêncio para ganhar notoriedade em posts e comentários preconceituosos.
Quando o negro entrou no cinema como heroi, promoveu uma bilheteria maior que a do premiado Titanic - promoveu a força do povo negro que se sentou na plateia onde quer que esse filme tenha passado. Quando o negro entrou na capela de Windsor, rompeu com tradições e incomodou a branca sociedade real, ainda preconceituosa: quando os negros participaram tanto em um evento real em toda a história inglesa? Lá estivem eles, representando lutas e resistências. Quando o negro entrou no elevador, entrou para trabalhar, para seguir em frente, para tentar passar mais um dia como qualquer outra pessoa, rompendo as barreiras históricas que muito brasileiro possui mas se nega a aceitar.
A humanidade ainda não entendeu o que é ser humano. Não entendeu que toda a História envolve repressores e reprimidos. E não consegue ainda se colocar na posição de repressor, não quer admitir. Mas coloca com maestria qualquer negro na posição de reprimido.
Quando o negro aparece numa tela de cinema, quando o negro entra na capela de Windsor, quando o negro entra no elevador, mostra a força que historicamente, brancos insistiam em reprimir. E as telas de cinemas, capelas inglesas e elevadores são a prova concreta de que os brancos, felizmente, falharam.
(...) me fiz na geniosa gema/ digeri horas de perdão/ e poemas. Alexandre Horner, (Me fascina o Fosco)
sábado, 19 de maio de 2018
sábado, 6 de janeiro de 2018
Seriguela
É árvore de infância. Exige espaço - não exclusividade. É que os galhos exigem espaço, o tronco é baixo, dá pra subir no pé, sem qualquer problema. Dá pra se pendurar nos galhos, qualquer um alcança.
Qualquer pessoa, qualquer coisa. É baixo mesmo, a seriguela não é árvore de crescer pra mais de metro. É de chão mesmo. Sorte nossa: fica mais fácil de colher os frutos.
Não são de todo doce, tem gosto bom. Alguns apreciam a fruta, outros a árvore, muitos o todo. Alguns querem que seja uma outra árvore.
Plantara a muda na frente de uma casa, em uma rua bem movimentada da cidade. Conseguiu espaço e a árvore em alguns anos conseguiu o que precisava: Espaço. Espalhou galhos para todos os cantos, ultrapassou a calçada, chegou ao asfalto.
Não cabia carro embaixo. Nem moto. Mas cabia gente, que quisesse no final dum ano ou início dum outro apanhar fruta. Era moleque, era adulto, era o que fosse. Estavam lá. Em semanas seus galhos estariam nus, sem frutos.
O dono da casa resolveu modificar a árvore: cortou todos os galhos que dão pra rua. Assim carro e moto poderiam estacionar ali. Não durou muito: passou um ano e os galhos voltaram a florescer e a cair de frutos. A árvore resolveu ser novamente mais forte.
Não satisfeito, pelo segundo ano consecutivo, os galhos foram podados. Só que dessa vez foram cortados de tal maneira que nenhum galho baixo pudesse ficar. Só uma coroa de galhos que estavam voltados pra cima. Nem esperou o amadurecer dos frutos. Tudo no chão, tudo pra abrir espaço pros automóveis.
E abriu. Por 10 meses o espaço ficou bem aberto. A seriguela não parecia pé de seriguela. Parecia outra árvore. Não era mais ela.
Mas tem dois meses, ela floresceu. Os galhos superiores, com flores. Não se alcança fácil, nem dá pra subir. Esse mês ela frutificou.
Os galhos de cima estão começando a ceder com o peso. O pé de seriguela tem que ser ele mesmo.
Qualquer pessoa, qualquer coisa. É baixo mesmo, a seriguela não é árvore de crescer pra mais de metro. É de chão mesmo. Sorte nossa: fica mais fácil de colher os frutos.
Não são de todo doce, tem gosto bom. Alguns apreciam a fruta, outros a árvore, muitos o todo. Alguns querem que seja uma outra árvore.
Plantara a muda na frente de uma casa, em uma rua bem movimentada da cidade. Conseguiu espaço e a árvore em alguns anos conseguiu o que precisava: Espaço. Espalhou galhos para todos os cantos, ultrapassou a calçada, chegou ao asfalto.
Não cabia carro embaixo. Nem moto. Mas cabia gente, que quisesse no final dum ano ou início dum outro apanhar fruta. Era moleque, era adulto, era o que fosse. Estavam lá. Em semanas seus galhos estariam nus, sem frutos.O dono da casa resolveu modificar a árvore: cortou todos os galhos que dão pra rua. Assim carro e moto poderiam estacionar ali. Não durou muito: passou um ano e os galhos voltaram a florescer e a cair de frutos. A árvore resolveu ser novamente mais forte.
Não satisfeito, pelo segundo ano consecutivo, os galhos foram podados. Só que dessa vez foram cortados de tal maneira que nenhum galho baixo pudesse ficar. Só uma coroa de galhos que estavam voltados pra cima. Nem esperou o amadurecer dos frutos. Tudo no chão, tudo pra abrir espaço pros automóveis.
E abriu. Por 10 meses o espaço ficou bem aberto. A seriguela não parecia pé de seriguela. Parecia outra árvore. Não era mais ela.
Mas tem dois meses, ela floresceu. Os galhos superiores, com flores. Não se alcança fácil, nem dá pra subir. Esse mês ela frutificou.
Os galhos de cima estão começando a ceder com o peso. O pé de seriguela tem que ser ele mesmo.
sexta-feira, 11 de agosto de 2017
Raiz de dois
Tantos cálculos passaram pela minha vida. Números, divisões, somas e somatórias. Por mais incógnitas que eu tenha passado, x e y não eram pra mim mistério, mas sempre buscávamos o que eles eram. Não havia problemas com letras do fim do alfabeto.
Me incomodavam os resultados em raiz. Quando o número tinha raiz, seguia o cálculo para um número inteiro. Então o símbolo da raiz ali desaparecia e seguia para o resultado. E quando o número não possuía raiz quadrada? Ali ficava o numero sozinho ou muitas vezes junto a um outro número: raiz quadrada de dois, três raiz de dois, cinco raiz de três. A raiz fechava o número.
Não havia um número inteiro que auxiliasse tal número. Assim ele ficava, dependendo do símbolo da raiz. Muitos professores indagavam que sim, os números possuíam raízes mas entravam nas casas depois da vírgula rumo ao infinito. Diziam que era só bater o número na calculadora e ali se desenvolveria a sua raiz. Com muitos números depois da vírgula.
Facilitava a vida não ter que mexer no vespeiro que vem depois da vírgula. Era dados estrondosos e detalhados, números que chegariam ao além. Mas que não deixariam de representar um número.
Passar o ensino médio sem saber pra onde iria esse número era estranho. O que ele poderia compor poderia ser próprio dele, havia sim algo além de sua raiz quadrada. Ali interrompíamos. Raiz de dois. Raiz de três.
Nos cálculos universitários, a raiz é desmembrada, precisa sair de sua confortável cobertura: ganha casas depois da vírgula e calcula-se livremente com outras situações. Ganha significado, ganha vida, apesar de não ser número inteiro. Mas se aproxima. Nunca será inteiro, mas persiste em sua busca. Segue teu rumo ao infinito.
Buscamos raízes. Origens, significados, causas. Sabemos as consequências, mas somos resultado de nossa própria investigação, procuramos causas. Tolice seria imaginar que a raiz de dois seria um vírgula quatro um quatro e milhares de outros números que o seguem. São infinitos, mas procuram chegar a algum lugar.
Procuramos lugares. Dar significados para onde estão nossos pés, compreender o presente, lançar olhares para o futuro. Somos talhados de presente, passado e futuro, estamos em constante desenvolvimento. Inexato. Complexo. Que não se chega ao fim.
Nossa vida aparenta muito o desenrolar de raízes: em busca de chegar em algo que seja perfeito, mas que não realmente seja. Mas tenta. Raízes vão para lugares que não sabemos. Mas vai, mesmo que não sendo inteiro. Mas vai mesmo que numa planta, para sustentar uma árvore inteira.
Precisa-se ir, mesmo sem fim. Nada nasceu para ser inteiro. Precisamos ir além da raiz quadrada de dois.
Me incomodavam os resultados em raiz. Quando o número tinha raiz, seguia o cálculo para um número inteiro. Então o símbolo da raiz ali desaparecia e seguia para o resultado. E quando o número não possuía raiz quadrada? Ali ficava o numero sozinho ou muitas vezes junto a um outro número: raiz quadrada de dois, três raiz de dois, cinco raiz de três. A raiz fechava o número.
Não havia um número inteiro que auxiliasse tal número. Assim ele ficava, dependendo do símbolo da raiz. Muitos professores indagavam que sim, os números possuíam raízes mas entravam nas casas depois da vírgula rumo ao infinito. Diziam que era só bater o número na calculadora e ali se desenvolveria a sua raiz. Com muitos números depois da vírgula.
Facilitava a vida não ter que mexer no vespeiro que vem depois da vírgula. Era dados estrondosos e detalhados, números que chegariam ao além. Mas que não deixariam de representar um número.
Passar o ensino médio sem saber pra onde iria esse número era estranho. O que ele poderia compor poderia ser próprio dele, havia sim algo além de sua raiz quadrada. Ali interrompíamos. Raiz de dois. Raiz de três.
Nos cálculos universitários, a raiz é desmembrada, precisa sair de sua confortável cobertura: ganha casas depois da vírgula e calcula-se livremente com outras situações. Ganha significado, ganha vida, apesar de não ser número inteiro. Mas se aproxima. Nunca será inteiro, mas persiste em sua busca. Segue teu rumo ao infinito.
Buscamos raízes. Origens, significados, causas. Sabemos as consequências, mas somos resultado de nossa própria investigação, procuramos causas. Tolice seria imaginar que a raiz de dois seria um vírgula quatro um quatro e milhares de outros números que o seguem. São infinitos, mas procuram chegar a algum lugar.
Procuramos lugares. Dar significados para onde estão nossos pés, compreender o presente, lançar olhares para o futuro. Somos talhados de presente, passado e futuro, estamos em constante desenvolvimento. Inexato. Complexo. Que não se chega ao fim.
Nossa vida aparenta muito o desenrolar de raízes: em busca de chegar em algo que seja perfeito, mas que não realmente seja. Mas tenta. Raízes vão para lugares que não sabemos. Mas vai, mesmo que não sendo inteiro. Mas vai mesmo que numa planta, para sustentar uma árvore inteira.
Precisa-se ir, mesmo sem fim. Nada nasceu para ser inteiro. Precisamos ir além da raiz quadrada de dois.
sexta-feira, 28 de julho de 2017
Sarahah´s: ontem e hoje
Em tempos não tão remotos, nas escolas era muito comum que no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio os adolescentes criassem um caderno, devidamente preparado para que cada uma das suas páginas houvesse uma pergunta. Numeradas, cada pessoa que recebia o caderno responderia as perguntas conforme a ordem numérica em que foi deixado para ele. Seria necessário que o sujeito colocasse o seu nome no seu respectivo número para que as perguntas fossem identificadas em cada uma das perguntas ao longo das páginas. Chamava-se caderno de enquete.
Era um sistema eficiente de recolhimento de informações, tendo em vista que o questionário era longo e que as questões poderiam ter conteúdos íntimos. E o sujeito poderia responder e fingir seu nome: Ele teria que ter tempo paa responder cada uma das respostas, então ele poderia levar o caderno para fora da escola. E na mão de quem poderia cair? Não se sabe.
Enfim, os adolescentes acabavam matando suas curiosidades intensas neste caderno.
Não é a adolescência a fase de grandes descobertas e questionamentos? Por que não propor que você conheça o outro e também possa ter um veículo pelo qual você também possa se conhecer por meio do outro?
A atualidade não mudou muito o esquema. É muito comum vermos questionamentos no facebook em que o sujeito pede para que seja comentado um "pontinho" (.) e muitas perguntas poderão ser respondidas de forma pública ou privada. Inclusive o teor das perguntas não mudaram desde o caderno de enquete: "o que você gosta ou não gosta em mim", "qual é o seu sonho", e assim por diante.
E essa mesma atualidade acabou gerando dois aplicativos sem qualquer tipo de questionamentos propostos. Há alguns anos atrás foi lançado o "Secret", onde as pessoas poderiam realizar qualquer tipo de comentário de forma anônima para as pessoas. Comentaria-se a respeito de alguém sem que fosse revelado. Deu dor de cabeça pois os comentários de conteúdo de bullying foi rapidamente disseminado. E temos neste ano, recentemente lançado o "sarahah", cujo propósito é o mesmo: ler comentários de anônimos a respeito de si mesmo. Público alvo: adolescente.
Resumindo: é o adolescente quem procura conhecer-se nesse mundo. Ora, é esta fase intermediária entre a infância e a fase adulta que se (acreditamos) constrói-se a autonomia. Assim, podemos perceber que desde tempos anteriores, conhecer-se e conhecer o outro é uma dádiva da adolescência: desta forma consegue conceber a sua identidade no espaço onde ele vive. Sarahah e caderno de enquete então são formas pelas quais procura-se um lugar na sua identidade, a partir do olhar do outro.
É a juventude que procura delinear nas mais diversas formas sociais a finalização do seu próprio eu. Pensemos: os adolescentes vivem ( ou procuram) viver em grupos, onde os diálogos são ( assim espera-se) enriquecedores para uma compreensão sobre que fase é essa em que todos vivem. Há que se resolver conflitos próprios. Há que se ajudar o outro em seus conflitos. Este é só mais um meio pelo qual os adolescentes procuram estruturar-se em seu espaço. Saber secretamente a respeito de si. Poder falar a respeito do outro.
Procura-se constantemente a realidade própria. Mas como não é de forma organizada, pode vir repleta de preconceitos e ataques. E o que era para ser um conhecimento a ser construído, passa a ser um veículo de destruição (lembrando que o caderno de enquete também era uma forma de ataque). Nada mais do que fundamental do que a presença dos pais em diálogos constantes para que cada um desses assuntos sejam debatidos em família e que prevenções possam ser realizadas nesse outro grupo, onde o adolescente também se questiona e também procura o lugar do seu eu. E onde também se constroem os limites.
Não é a adolescência a fase de grandes descobertas e questionamentos? Por que não propor que você conheça o outro e também possa ter um veículo pelo qual você também possa se conhecer por meio do outro?
A atualidade não mudou muito o esquema. É muito comum vermos questionamentos no facebook em que o sujeito pede para que seja comentado um "pontinho" (.) e muitas perguntas poderão ser respondidas de forma pública ou privada. Inclusive o teor das perguntas não mudaram desde o caderno de enquete: "o que você gosta ou não gosta em mim", "qual é o seu sonho", e assim por diante.E essa mesma atualidade acabou gerando dois aplicativos sem qualquer tipo de questionamentos propostos. Há alguns anos atrás foi lançado o "Secret", onde as pessoas poderiam realizar qualquer tipo de comentário de forma anônima para as pessoas. Comentaria-se a respeito de alguém sem que fosse revelado. Deu dor de cabeça pois os comentários de conteúdo de bullying foi rapidamente disseminado. E temos neste ano, recentemente lançado o "sarahah", cujo propósito é o mesmo: ler comentários de anônimos a respeito de si mesmo. Público alvo: adolescente.
Resumindo: é o adolescente quem procura conhecer-se nesse mundo. Ora, é esta fase intermediária entre a infância e a fase adulta que se (acreditamos) constrói-se a autonomia. Assim, podemos perceber que desde tempos anteriores, conhecer-se e conhecer o outro é uma dádiva da adolescência: desta forma consegue conceber a sua identidade no espaço onde ele vive. Sarahah e caderno de enquete então são formas pelas quais procura-se um lugar na sua identidade, a partir do olhar do outro.
É a juventude que procura delinear nas mais diversas formas sociais a finalização do seu próprio eu. Pensemos: os adolescentes vivem ( ou procuram) viver em grupos, onde os diálogos são ( assim espera-se) enriquecedores para uma compreensão sobre que fase é essa em que todos vivem. Há que se resolver conflitos próprios. Há que se ajudar o outro em seus conflitos. Este é só mais um meio pelo qual os adolescentes procuram estruturar-se em seu espaço. Saber secretamente a respeito de si. Poder falar a respeito do outro.
Procura-se constantemente a realidade própria. Mas como não é de forma organizada, pode vir repleta de preconceitos e ataques. E o que era para ser um conhecimento a ser construído, passa a ser um veículo de destruição (lembrando que o caderno de enquete também era uma forma de ataque). Nada mais do que fundamental do que a presença dos pais em diálogos constantes para que cada um desses assuntos sejam debatidos em família e que prevenções possam ser realizadas nesse outro grupo, onde o adolescente também se questiona e também procura o lugar do seu eu. E onde também se constroem os limites.
quarta-feira, 5 de julho de 2017
Sem sorriso
Passamos por horas correndo o dedo por fotos em sites de redes sociais. Não podemos mentir, não são minutos. Tanto sorriso, tantas festas, a felicidade ultrapassa seus limites.
Até que eu abrisse uma das redes sociais e uma das pessoas ali expostas não postasse um sorriso sequer. Sem sorriso. Não estava séria, só. Estava brava, óculos escuros. Nada além de rugas laterais. Nada além de uma cara cotidiana para uma segunda feira matinal.
Uma cara brava. Me senti no mínimo fora daquele espaço, não acreditei no que via. Um rosto bravo num mundo eletrônico de simpatia. Me senti impactado: algo estava errado. Por que não sorrir?
Há tempos uma foto não me chamava tanta a atenção. Quão xucro achei aquele momento dócil? Um corte naquilo que era comum: alguém não sorriu por um momento. Não haviam espaços demosntrados na foto de que outro sentimento poderia ser transmitido: um belo jardim? A big party? Família Reunida? Nope. Rua e uma cara de bravo.
Senti vontade de aplaudir aquela rigidez em foto. Um espaço democrático onde não sorrir é mortal. É ferir querer demonstrar feridas. Me feriu, pois foi basicamente realidade.
Aquela boca naquele dia resolveu contar muitas verdades sem que seu dono puxasse seus músculos da boca. Não recebeu muitas curtidas, sequer visitas.
A verdade quando exposta, dói. Promove um estranhamento quase que coletivo, em que vivemos por querer mostrar ao mundo que somos invejáveis. Aliás, por que não pensar que o sujeito das redes sociais provoca a inveja por ele não querer ser o alvo da mesma? Esse pensamento não é original, há muitos estudiosos pensando nisso.
Aquele sorriso demonstrou que não temos nas redes sociais um espaço democrático. Se assim fosse, por que estranhei o não sorrir? Sei que estou envolto neste meio e sei que muitas pessoas estranham o que é diferente neste mesmo espaço eletrônico. Que democracia exige que se sorria a todo tempo? Aliás, por que cobramos tanto dos outros? O que não queremos enxergar no outro que seja na verdade nosso?
De tantas fotos, de tantas demonstrações, aquela imagem ganhou seu devido espaço. Pode ser uma imagem estranha em meio ao mundo positivo, mas pode ao menos lembrar-nos de que os anzóis que levantam nossos cantos da boca, são passíveis a ruptura. Sem belos jardins. Sem festas. Numa segunda-feira qualquer e sem graça, digno de qualquer sujeito vivo.
segunda-feira, 1 de maio de 2017
A repetição do fracasso
Depois de tantas recomendações acerca da série "Thirteen Reasons why", série veiculada pela Netflix, comecei a perceber algo que todos já percebemos e as repetições permanecem.
A série gira em torno de uma garota que chegou ao suicídio, porém, antes de faze-lo, gravou uma série de fitas para que ela esclarecesse entre algumas pessoas o que a conduziu a tal ideia. Interessantemente, esse enredo é um livro com o qual não tive contato, todavia minha ideia perpassará por outro aspecto. Não falarei desse suicídio.
O suicídio que indico aqui é a proposta que eles tanto demonstram a tempos em filmes e livros. A estrutura educacional estadunidense que deixa com que as coisas aconteçam e as reações são paliativas e as consequências são árduas.
Na série acima citada, o autor deixa bem claro: garotos atletas ganham notoriedade (ganham concursos de fantasia sem qualquer criatividade) assim como as líderes de torcida: são classificados como populares e assim são aplaudidos constantemente. Os nerds ( ou quem não está entre eles) sempre estarão no alvo do ataque, serão considerados os "bobos" da situação - por não serem populares, sofrem a marginalização e se viram diante do sofrimento - criam grupos entre si, porém que idolatram o grupo popular. E na história da série, Hannah é uma dessas personagens marginalizadas que tenta frustradamente entrar no meio popular e acaba virando motivo de bullying permanente.
Perceba que todas as vezes que o sistema educacional estadunidense for exposto, essa proposta de popularidade/ marginalização surgirá. Vejamos no caso do best-seller Extraordinário escrito por R.J.Palácio. Auggie (August Pullman), protagonista da história, passa por uma dificuldade em meio ao espaço educacional: entrar no ensino fundamental sem ser julgado pela sua aparência -uma deformidade facial. Vejamos um trecho do livro de R. J. Palacio, em que August Pullman tem a voz:
E ficar lá era horrível no começo. Cada aula nova era uma nova oportunidade de as crianças 'não olharem' para mim. Elas me espiavam por trás dos cadernos ou quando eu não estava olhando. Evitavam esbarrar em mim a qualquer custo, dando a volta e pegando o caminho mais longo, como se eu tivesse algum germe que elas pudessem pegar; como se meu rosto fosse contagioso. (PALACIO, p.68)
Ao longo da obra, August Pullman luta para se adaptar a realidade de ser constantemente observado e enojado numa escola cuja a listinha que corre entre os alunos é de quais são os grupos populares/ impopulares que existem e onde cada um provavelmente ele se encaixa para poder sobreviver. O desfecho não posso dizer aqui.
Nos dois casos, a tentativa de sobrevivência é forte. Recebe o aplauso o mais popular, recebe a atenção dos alunos o destaque em perfeição física. Me pergunto: onde estão as autoridades escolares que não percebem que essa estrutura não está correta?
Por que observo medidas paliativas? Sim, rendem-se homenagens a Hannah, fazem palestras de conscientização, sim, Auggie passa a ser respeitado pelos alunos, mas a estrutura é mantida. Tiremos Auggie e Hannah de ambas as histórias e tudo prevalece em marginalizações. Os populares continarão sendo populares e as autoridades que compõem a estrutura educacional permanecerão deixando esse caminho ser trilhado sem qualquer problema.
O educar está pautado num convívio social duro e sanguessuga: há visivelmente o mais forte e o que sobra é todo um grupo que nada representa. E o que eles reproduzem artisticamente vem representando tudo isso como uma longa compulsão a repetição: a estrutura permanece a mesma, deixando de lado qualquer um que não seja "popular".
Enquanto esta estrutura popularizante, que reduz o sujeito a uma margem, digno a não ser visto ou valorizado, teremos Tiros em Columbine, crianças pensarão em uma alternativa de sobreviver por meio das panelinhas, outros verão na morte uma solução pro fim das chacotas e invasões de privacidades. A estrutura educacional estadunidense promovida pela produção cultural é insistente em dizer que muito do que há lá está errado e que nada tem sido feito para mudar. Seria muito difícil pra eles olharem que o educar deve ser para todos - a autonomia deve ser construída para todos e não para poucos? Que quem se destaca financeiramente e fisicamente são partes do todo e não o todo em si?É culpa sim da estrutura educacional (que nada faz para se modificar em seu âmago) a construção do bullying.
domingo, 16 de abril de 2017
A rumba de Saraghina
Fazer um filme demanda tempo e paciência: um bom enredo, um elenco e uma direção significativa. Enredo? Esse foi o problema apresentado pelo filme 8 e 1/2, de Federico Fellini. Guido é um personagem que passa por um sério problema: escrever um roteiro de um filme. Para tanto, todas as suas paixões e desejos acabam aparecendo e virando motivos de lembrança - amalgamam-se em vários momentos, enquanto o fraquejar do protagonista é sentido a cada momento. Por que não um dos seus momentos de torpor não poderia ser sua adolescência?
Não precisou de muito pra demonstrar como uma mulher enigmática conduziu ao êxtase os jovens estudantes. E tudo muito simples.
Fellini teve a feliz ideia de fazer com que em uma das lembranças de Guido, houvesse um momento erotizado ( se comparado com os dias de hoje, é uma cena leve): A famosa cena da Rumba de Saraghina.
Neste momento, um grupo de jovens saem de um internato até a praia onde pagam para que Saraghina dance. Numa dança que descrevo como exótica, Saraghina encanta cada um dos meninos com um gingado peculiar e olhares misteriosos e penetrantes. O jogo de movimento e zoons realçam cada passo dessa dança.
Uma elaboração simples: uma mulher que sai de um bunker emerge para a dança: limpa seu rosto para ganhar vida em passos arenosos, em olhares felinos. Quais foram os efeitos especiais? A maquiagem? O jogo dos olhos? A areia chutada pela dançarina?
Segundo Hugh Gilmore em sua postagem acerca da descoberta de quem foi a misteriosa dançarina, Fellini a descobriu quando andava na rua. Aliás, curiosamente, a dançarina era uma cantora de ópera que foi convidada pessoalmente por Fellini para fazer o teste para o filme. Em outras partes do filme, Saraghina ganha voz e toma outras atitudes, porém a cena central são os 3 minutos de filme na beira da praia.
Uma cantora que resolve dançar. Uma cena que exigiu nove pessoas atuando. Percebe-se que não foi uma cena de milhares de câmeras; antes de qualquer coisa, uma cena com uma fotografia esplêndida. Maquiagem inigualável. Olhos penetrantes, olhares certeiros.
Não precisou de muito pra demonstrar como uma mulher enigmática conduziu ao êxtase os jovens estudantes. E tudo muito simples.
Saraghina hipnotiza os garotos no longa metragem e os cinéfilos da contemporaneidade: uma obra prima do cinema.
A marca de Fellini não eram os complexos efeitos especiais. Em seus filmes, a rudez das gravações eram perceptíveis a todo momento - e é ali onde vivia o requinte.
Numa rumba de três minutos, renderam quadris, olhos, pulos e tapas. Em preto e branco. Nove atores, numa praia ordinária e suja. Pode parecer muito elogio para uma cena só, mas vivemos um momento da cinematografia mundial em que cenas assim dificilmente poderão ser imitadas. Onde a simplicidade é motivo de vergonha e pouca atenção. Eddra Gale ficou imortalizada por uma simples e amadora dança. Federico Fellini, como um dos maiores cineastas do século XX, só premiado com o Óscar nos últimos anos de sua vida, tem uma série de filmes aclamados pelos cinéfilos mundo afora. Poucos ganham esse espaço. Fellini hoje é, em muitos momentos, sinônimo de intelectualidade cinematográfica.
Do simples emerge o extraordinário.
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