domingo, 26 de abril de 2015

Quaresmeira

Talvez uma calçada comum, mas naquele momento me parecia uma bela calçada. Bem feita, pedra após pedra, a frente de uma casa fora devidamente bem feita, bem enfeitada. E pra melhorar uma bela árvore. Flores roxas, folhas viçosas: uma quaresmeira de robusta copa.

Uma bela combinação talvez, calçada e árvore, flor e construção, o pisar e o observar para admirar. Uma casa não tão bonita, simples de se olhar. Mas capricharam no visual externo.

Capricharam tanto que uma beleza sobrepunha a outra. Quando a quaresmeira florescia, o roxo formava uma vela cobertura em toda a sua copa. Dado o devido tempo de polinização, cada uma das flores caía.



E caía na calçada. Bela calçada, bela árvore, porca dona. Deixava cada uma das flores ali, talvez por falta de tempo não limpava a passagem na frente de casa. E acumulava as flores. A tonalidade do roxo morto ao roxo vivo era até galhardo de se ver acumular na calçada. Mas o tempo dava um jeito de ativar sua  natureza: logo as belas flores começavam a fermentar e um  sutil porém malcheiroso gás desprendia do chão. Mas a quaresmeira permanecia ali. E embaixo das flores mortas, a calçada.

É um tanto quanto curioso como as belezas são sufocantes: como a vivacidade presente na beleza sufoca aquilo que está diante da gente. A calçada virava um fétido e roxo mar, escurecido e manchado. Sem lavagem, as pétalas deixavam o restante do líquido de sua vida manchadas no chão. Mas a calçada estava ali embaixo.

A quaresmeira permanecia viva e forte. A calçada ali permanecia, mas a árvore vencia, enquanto que a inanimada calçada escondia-se sem pedir. Porque não sobreviver duas belezas? Porque uma deveria sobrepor a outra?

O tempo passava, os ventos sopravam, as pétalas sem escolha e secas voavam para outro lugar. Mais uma vez a calçada estaria exposta. Mas sem ser limpa, as marcas permaneciam por falta de cuidado. E a calçada era a suja permanente, fadada aos pés, às pétalas, a esconder-se e disfarçar-se sem querer, numa beleza reprimida.


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Abelhas

Várias espantam. Porém apenas uma basta para nos chamar a atenção.

Uma abelha é suficiente para que a gente fique atento se ela não avança. Independente de ser alérgico ou não, ninguém gosta de uma picada de abelhas. Exceto os sado-maso, mas isso não vem ao caso.

Mas o caso não é uma abelha má. Ela rondava e rondava a cabeça de um rapaz que tentava afastá-la, sem sucesso. Uma, duas vezes ela tentava avançar. Chegava perto do copo de refrigerante que por vezes foi impedida de se aproximar. Até que num descuido ela conseguiu chegar ao copo.

Não foi ao conteúdo do refrigerante, mas a uma gota da borda. Em questão de segundos, a gota sumiu, seu abdome inchou, e dificultosamente ela voou, como um caminhão em sua carga máxima. Desapareceu.

O rapaz sacou o desejo da abelha: não era atacar, queria o refrigerante. Nada mais, sem ataques, sem zumbidos infernais. Colocou um pouco do refrigerante por cima de uma outra superfície para que, ao invés de ir ao copo, que fosse para o outro lugar.

Dito e feito: lá foi a abelha pra outro lugar, encher o ventre, que logo virava um caminhão pipa e voava pesada e sem rumo. Por umas 4 vezes ela repetiu essa ação. Trouxe até uma companheira para acompanhá-la nos sabores de um novo mel sabor limão.

A tampa da caixa térmica deveria ser guardada. A festa acabou ali, o rapaz foi embora. Nada mais de refrigerante, nada mais de abelha. A abelha ficou procurando a tampa, em vão.

Poderia ter sido pior: a abelha poderia num surto psicótico  ter avançado e deixado um belo ferrão na pele do rapaz. Toda abelha tem seu lado inofensivo. Pode ou não atacar, se for necessário. Mas o refrigerante não poderia ficar ali para sempre, o rapaz deveria sair da beira-mar para sua casa. Tudo deve ser respeitado. A abelha talvez tenha compreendido isso. Teve que compreender: não havia mais ninguém ali, a não ser a mata, a areia e as ondas. Nada de refrigerante. O homem teve que compreender: nada de picadas, nada de ataques.

Talvez ela tenha achado um novo copo de refrigerante num canto qualquer. Talvez ela tenha se encontrado com um jornal enrolado e ido para o céu das abelhas. Uma bastou para compreender que tudo tem sua medida.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Vem pro Bonde, vem!

É comum quando passamos a estudar Getúlio Vargas que passemos pelo Estado Novo. E no Estado Novo, por um forte mecanismo de controle de imprensa denominado, na época de DIP ( Departamento de Imprensa e Propaganda). Ele funcionava como um aparato de controle do que poderia ou não ser publicado durante a ditadura Vargas - e se pudesse, que elevasse a figura do ditador.

Neste caso, um dos exemplos mais conhecidos foi o do caso da letra de Ataúlfo Alves, da canção  O Bonde de São Januário. Na versão original, era um otário quem iria pegar aquele bonde para poder ir trabalhar.

“O Bonde São Januário
Leva mais um sócio otário
Sou eu que vou trabalhar..."


 Porém, diante de um governo que tinha por base a valorização do trabalhador ( lembremo-nos: a CLT fora montada em seu governo), mais do que rapidamente a DIP entrou em ação e exigiu que houvesse a modificação da letra. A partir daquele momento, ao invés de um otário, temos um operário que é levado pelo bonde. Neste momento, é uma pessoa que resolveu acertar na vida e trabalhar. Não mais um otário, supostamente desleixado, descrente do que deve fazer.

As vezes imaginamos que o incômodo da letra venha apenas de momentos ditatoriais ou de momentos de governos repressivos: se não gostasse, lá estava a censura, que com seu sorriso frio acabava entristecendo a vivacidade da liberdade artística.

Não seria muito diferente se fôssemos pensar nos dias atuais: Ano passado, (2013) neste mesmo período do ano, o Brasil vivenciou uma série de protestos que tiveram início no aumento da passagem do metrô na cidade de São Paulo: ao subir R$0,20, grupos uniram-se e conclamaram a população para lutar pela diminuição do preço do transporte. E não só isso: também lutavam por outras situações. Era a povo indo às ruas, exigindo melhores condições. Em cada cidade, uma preocupação particular. Uma reivindicação a parte. O povo começaria a perceber que a atividade da cidadania não se faz só nas urnas.

O momento esportivo daquele momento era a Copa das Confederações. A canção, protagonizada por Falcão ( a pedido da FIAT), fazia um pedido particular. Chamava a população para comemorar os jogos na rua. Mas a música acabou virando um ímã para as atividades de protestos, e em boa parte das atividades, seu refrão virou grito generalizado. As pessoas obedeciam. A rua virara a arquibancada das atividades da população.


Passado 1 ano, agora quem está dando as caras nada mais é do que a Copa do Mundo, como um dos maiores eventos esportivos do mundo. A população mundial ( Exceto Estados Unidos, que estão querendo entender que tipo de jogo é esse em que o ser humano tem a capacidade de chutar uma bola totalmente redonda e não uma bola ovalada) está sendo atraída para os televisores para saber quem será o vencedor da Copa deste ano.

Onde já se viu a população tomar qualquer tipo de atitude na rua? Por que não mudarmos esse ponto de vista e realizarmos uma canção que, ao invés de chamar a população pra rua, chamaria pra festa?

Eis que a situação fora amenizada: não chamemos a população pra rua, vem pra FESTA que acontecerá na rua.


A rua ainda é do povo, mas agora, temos que festar. Uma marca em particular não poderia errar duas vezes. O que se faz na rua é festa. E quem disse que não se fez a festa da democracia ano passado? Que festa que eles querem? Uma empresa em particular culpou-se por chamar a população sem saber e agora quer inverter os papéis? 

Não estamos em um estado ditatorial. A atitude foi de uma empresa privada. Mas, entre um estado e uma empresa, há o medo da ação popular. O que poderia acontecer se a DIP deixaria passar a letra dizendo que o otário iria trabalhar? O que aconteceria este ano, se a mesma música emblemática das passeatas fosse repetida? Melhor jogar água na madeira pra que ela evite de pegar fogo.

 Há várias formas de tentar enganar o povo de que algo não pode ocorrer. O Bonde de São Januário poderia carregar um otário, e preferiu-se carregar um operário. Hoje, vamos pra rua pra fazer festa ( Repare: na letra o destaque é a palavra festa e não rua como na canção do ano passado). E somos convidados a festar. Não nos esqueçamos: protestos durante a copa estão acontecendo. Não há cobertura da imprensa que queira falar sobre isso. Mas há repórteres de sobra querendo ver um gringo cantar Garota de Ipanema ou fazer qualquer asnada ao ver uma bela bunda loira passar por Copacabana.

Temos que aprender uma coisa: houve,há e sempre haverá um grande temor pela reação popular. Há mais poder nas mãos da massa do que se imagina.

E tenha a certeza que um carro não custe R$0,20.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Anéis de Saturno

Uma das primeiras visões de Saturno realizadas por Galileu Galilei em 1610, demonstrava que este planeta tinha orelhas. Isso: orelhas. Galileu Galilei ainda não tinha informações suficientes para tornar claro que este planeta era circundado por um gigantesco anel. Ou mesmo qual seria a serventia de um planeta com orelhas. Ora via grandes orelhas, ora via algo parecido com 3 planetas em um só.

Com o tempo, foi-se percebendo com o avanço da ciência que se tratavam de anéis. E que estes anéis giravam em torno do planeta até mesmo em uma velocidade diferente, se comparado com a superfície de Saturno.

Na atualidade, descobriram-se outros fatores mais: que há chuvas no planeta, que o planeta tem diversas luas, etc. Mas cuidemos agora dos anéis. Carl Sagan, em sua obra Pálido Ponto Azul traz uma informação intrigante: os anéis, apesar de tão visíveis por telescópio e de ser a atração deste gigante gasoso, são mais finos que uma folha de papel.

Uma folha de papel.

Peça pra uma criança desenhar um planeta e ela ficará fascinada em fazer um desenho de um planeta com anéis. Tal criança não sabe, mas o que mais a fascina é tão fino quanto uma folha de papel.

Uma folha de papel que, como o próprio Sagan dizia, tem a futura tendência a sumir. O planeta poderia ficar apenas com suas luas.

Já se sabe a tempos que os anéis são conturbados de tempos em tempos por meteoros. Ou seja, a parte do conjunto todo que denominamos Saturno, É tão fina quanto papel, tem a tendência a sumir e possui meteoros que bagunçam as argolas.

Assim somos: damos mais vistas àquilo que mais é chamativo, mais atraente, e não percebemos que o belo é temporário. Abandonamos o bom em detrimento do belo. Talvez os anéis chamem demais a nossa atenção, mas são temporários. Não vão sumir hoje nem amanhã, mas sumirão.

Por que não ir um pouco mais a fundo e descobrir o que se passa dentro do planeta? Por que isso não fascina a todos? Seria o homem fascinado naturalmente pelo efêmero, tal qual sua própria existência? A valorização do efêmero é algo visível em muitas pessoas, porém o verdadeiro interior, o verdadeiro eu, o profundo, o real é deixado de lado.

Aliás, por que não percorrer por outros planetas e verificar se há anéis? Já se sabe, depois das pesquisas das sondas Voyager, que Urano, Júpiter e Netuno possuem anéis. Talvez estejamos perdendo tempo em cima de algo espetacular, quando o sublime está em outros lugares, em outros planetas, de maneiras mais sutis, talvez imperceptíveis, que faça que nos atentemos mais ao planeta do que algo que talvez o embeleze.

O que seriam duas orelhas, três planetas, vários aros, é atrapalhado e sumirá. O planeta continuará. Outros planetas continuarão, e nem sequer nos atentamos para seus anéis, para seus detalhes. Focamos demais no belo, enquanto o desconhecido, o real, o duradouro, pode ser mais útil e necessário do que imaginamos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Patética explicação

Um museu, várias obras de arte. Várias pessoas e duas pessoas a passear por entre os quadros expostos. 

Duas pessoas que chamaram a atenção de muitas pessoas.

Eis que um indivíduo nos seus 40 anos (suponho) resolve explicar para sua filha com seus visíveis 6 ou 7 anos, os detalhes das obras de arte do Romantismo europeu e s pinturas que sofreram influências deste período
. Quadro a quadro os dois passavam e o determinado pai explicava com detalhes o que se passava em cada quadro.

Era um "olha ali: tá vendo aquele pássaro? Ele representa a tranquilidade." depois a menina era questionada sobre a data "lê pra mim: que ano foi feito esse quadro? Então esse é mais velho que o outro, concorda?". Na atitude do pai, (aliás louvável ao pensarmos que está a levar a filha a um museu) visivelmente uma pessoa muito bem esclarecida sobre as artes, uma excelente boa atitude vazava pelos poros. Porém, para a figura da criança...

...não sei se ela estava realmente entendendo tudo aquilo. No frenesi imposto pelo pai, a garota mais parecia alguém que estava servindo de alvo para que o pai pudesse expor suas ideias. Ela estava muito mais agitada do que atenciosa. Muito mais afoita do que em absorção de ideias.

Em nenhum momento a menina era questionada sobre o que era o quadro, o que ela achava, o que ela via. Era um bombardeio de informações gigantesco, como se pás de letras fossem jogadas no ouvido da pequenina. E lá ia o indivíduo explicando detalhes acadêmicos a uma guria com imaginações inexploradas.

Fiquei imaginando: o que poderia ouvir um tão sábio de uma menininha sobre os quadros mais clássicos do romantismo? Cada coisa que ela poderia dizer, com certeza iria sair dos padrões acadêmicos. E seria dela. Marcaria ela o quadro para si. Mas não foi o que ela teve de oportunidade. Ela teve que escutar.

Ela teria muito mais a dizer. Uma pintura diante de um acadêmico versado em tal tema é um prato cheio. Mas para uma criança, viraria um mundo de imaginações e criações mentais. Não era o que acontecia. Era uma passagem de um quadro para o outro recebendo informações numa agitação desnecessária. 

Eu via palavras que ecoavam  museu afora, menos chegando na menina. E ecoava nos ouvidos de todos os visitantes. Minha única saída era ter que esperar o lente insignificante passar com suas inúmeras informações para que pudesse ver a exposição do meu jeito. Mas mais tempo, menos tempo, ali aparecia o chato.

Crianças devem ser questionadas sobre o que elas estão vendo. Sobre o que elas irão fazer e por que irão fazer. Num momento de aprendizagem, ainda mais nesta idade, a imaginação transborda, e precisa ser utilizada. Crianças não compreendem explanações acadêmicas, são detalhes de adultos. Elas entendem os detalhes delas mesmas e pode ter certeza, elas estão a espera sempre, de explorarem sua criatividade, ou seja, elas estão querendo explorar o mundo a sua volta.

Uma patética explicação de um entendido, que mais se mostrava ao público em voz alta que ali estava como uma pessoa "inteligente".Visivelmente um exibicionista que estava ali para se mostrar aos outros do que um pai realmente preocupado com a exploração da imaginação da filha. Uma pena. Um desperdício.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Partes unidas

Observe qualquer camiseta ou calça ( ou bermuda ou cueca ou calcinha ou...). Observe então, mais atentamente à costura da peça de sua escolha. E pronto: já chegamos onde queríamos.

Que uma roupa é formada por mais de uma peça. Genial, um post só pra isso? Pois é. Para falar de que uma peça de roupa é formada por mais de uma parte. 

Vejamos por exemplo uma camiseta. Ela possui a parte da frente, a parte de trás, as mangas, as dobras das mangas e o colarinho. Pode ter um bolso, pode ter um bordado. Mas é uma camiseta.

Porém ao pensar na camiseta, não observamos esses detalhes: ela é uma só e basta. Mas se analisarmos, ao retirar qualquer dessas partes, ela se descaracteriza como uma camiseta normal. Mas, temos o poder de modificar, de transformar essa peça de roupa como quisermos, de modifica-la como nosso gosto ou não.

E ela não precisa ter exatamente as mesmas características: pode ser modificada conforme  a necessidade e o gosto do indivíduo. Mas de início, ela é uma união de várias outras partes. Poderia até comparar com uma colcha de retalhos, mas não carregamos a colcha conosco. (acho mais apropriado comparar uma colcha de retalhos com os sonhos...)

Como nós mesmos. Poderia falar agora sobre o aspecto físico, mas creio que não seja meu foco. Utilizamos roupas todos os dias assim como carregamos conosco quem somos. Não somos uma coisa só e fixa, somos como uma peça de roupa: várias partes que formam uma coisa só. Assim somos.

Somos tristes, somos felizes, somos contemplativos e distraídos. E tudo isso, em diferentes ocasiões criam aquilo que nos forma. 

Somos várias partes. Recebemos informações a todo o tempo e precisamos usar o que nos fez no passado no nosso hoje. A todo tempo. Não há como dizer que temos apenas uma característica. 

Temos várias, e as carregamos para onde quer que vamos. Podemos mudar, tal qual mudamos uma roupa, utilizar uma determinada forma de linguagem para que possamos nos adaptar a um determinado ambiente. Podemos até mesmo, em determinados lugares, sermos brincalhões para ocasiões sérias. Quem já não dobrou a manga da camisa por estar em um local mas abafado?

Não somos de pedra. Somos indivíduos flexíveis em nossas atitudes e nossos sentimentos. Podemos mudar quando necessário, dobrar ou cortar o que for necessário. Mas não somos uma coisa só. Somos formados por pequenos pedaços desde que nascemos e que, podemos tirar ou modificar de nossas vidas. Somos a união de um todo.

E essa união de várias partes que deve ser o montante para nos questionar diariamente quem somos, por que estamos aqui e o que estamos fazendo com nossas vidas. Dizer que "somos assim e ponto final" não justifica. Temos que criar coragem e vasculhar nossas várias partes, para que possamos compreender quem somos. 

Não se faz uma simples camiseta sem cortes, sem partes diferentes. Devemos unir as várias partes com várias costuras. Para compreendermos uma simples peça de roupa, devemos compreender o que a forma. Assim como nós mesmos. Encarar-se é a melhor forma de descobrirmos quem somos. A resposta está na gente, no nosso passado, no que nos formou, forma e formará. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Almeida-Zero

Ah, os comerciais. Cada vez mais deixando claro a todos qual é a sociedade em que vivemos.Imagine que sua casa esteja infestada por pernilongos. Por que não procurar uma tática eficaz para eliminar tais insetos? Chame a família inteira para mata-los!



Comece pela organização de comunicação: todos com walk-talks para observa o que veem. Enumere os familiares, considerando o "sobrenome base", no caso desta propaganda, Almeida. Ao pai, utilizou-se o número 2, ao filho 3, à mãe 1. Talvez poderia de uma certa maneira ter parado por aí, tendo em vista que a quantidade de pessoas que participam na feroz tarefa de eliminar insetos é suficientemente boa ( ao meu ver). Falta uma figura ainda. o número "zero".

Quem poderia ser enumerado por um número que em nossa consciência não significa nada? O que é o zero para o nosso cotidiano? Eis que o avô da família, aquele que já trouxe conhecimentos e sustentos há tempos. E é quem recebe a numeração fatídica.

Zero. O avô é o "Almeida-Zero". Me intriga tal fato justamente pelo significado que acabamos carregando sobre essa situação, utilizamos o zero quando queremos dizer que não temos nada. O símbolo da ausência. Do não-fazer.

Posso exagerar ao pensar nisso, mas observando o comercial vamos um pouco mais além: quem é o indivíduo que tem a tarefa de borrifar o veneno? O avô. O zero, no comercial. Aquele a quem é atribuída a tarefa de utilizar o utensílio que "espalha irregularmente o veneno". E o resto da família permanece ilesa, protegida, pelos esforços do ancião. Que, como um escudo frágil, acaba dando a cara a tapa e protegendo os fortes.

Ao final do comercial, o mesmo é cobrado pelo mais novo da família por dormir. O Almeida-Zero, escudo, frágil, de experiências incontáveis, agora deve permanecer em vigília.

Mesmo que em tom de brincadeira, vejo uma grande situação de exclusão - o idoso é colocado para a tarefa perigosa, o idoso é cobrado para trabalhar, o idoso é quem sustenta a proteção da família.

Nada mais do que não ocorra na sociedade. Este comercial reflete o como temos pensado de nosso idoso: do isolamento atribuído àquele que, socialmente, já contribuiu. O de colocar o indivíduo em risco, haja visto que sua morte talvez nada modificasse ou importasse.

Como deveríamos pensar tudo isso? Quem deveria estar a frente da proteção deveria ser o pai da família, fisicamente o mais forte. De que o Almeida-Zero deveria ser numerado como Almeida-um, o simbolo do início, a unidade que dá (e deu) a estrutura base para todos os outros números. E de que ele deveria estar em lugar seguro. Quem dera se a família estivesse defendo-o o mais novo inclusive.

Estamos diante de uma situação em que o velho é o deixado de lado. E que nós acabamos assistindo a este comercial com total indiferença, marco este de que talvez e infelizmente, seja um sentimento ridículo introjetado ( e que pode ser urgentemente revertido para o total descanso e apoio aos nossos idosos) na sociedade.